Júlio Dinis
Da segunda carta de Júlio Dinis ao seu primo José Joaquim Pinto Coelho
Eis a idade dos vinte anos,
Tão celebrada em poesia,
Em que a ardente fantasia,
Cria mil visões de amor !
Voa a alma atrás dos sonhos,
No seu seio se embriaga,
Como a abelha que divaga
Poisando de flor em flor.
Saudemos pois esta hora
Se ela é hora de esperança!
O isolamento cansa,
Não amar, é não viver!
Na floresta as aves cantam,
Quando alveja a madrugada,
Se a aurora d'alma é chegada,
Cantemos-lhe o amanhecer.
Mas a própria natureza
Quis saudar-te neste dia,
E num sorriso te envia
Sua grata saudação.
Ela fenece, declina,
Já se despe de verdores;
Tu na quadra dos amores
Colhe as flores da estação.
«Colhe-as, viçosas se mostram
No teu extenso horizonte.
Exulta pois, ergue a cara,
Que a tua hora enfim chegou!»
1860.