Júlio Dinis

TERÇA-FEIRA

IV

 

E viu-os partir. E o pranto

Lhe inunda as faces. Desmaia.

Dos pescadores o canto

Se escuta ao longe na praia.

 

Oh! que tristeza tamanha!

Que pressentimento amargo,

Quando as lanchas da companha

Se fazem, remando, ao largo!

 

Junto à imagem de Maria

Esta outra mãe dolorosa

De joelhos todo o dia

Lhe ergue preces, fervorosa.

 

«Ó Mãe de Deus, luz divina,

Que ilumina as nossas almas!

Ó estrela matutina,

Que as tempestades acalmas!

 

«Baixa à Terra esses olhares,

Nossa única esperança,

E, voltando-os sobre os mares,

Protege aquela criança.

 

«Compadece-te, Senhora,

Destas lágrimas sentidas;

Estende a mão protetora

Sobre aquelas pobres vidas.

 

«Vê que me andam sobre as águas

Todos quantos estremeço.

Mãe, que entendes minhas mágoas,

Diz se essas vidas têm preço!

 

«Pela angústia que sentiste

Junto da cruz, ó Maria,

Vale-me nesta hora triste,

Vale-me nesta agonia.»

 

No meio de ardente prece

Ergue-se inquieta, palpita,

Fitando o céu, que escurece,

Ouvindo o mar, que se agita.