Júlio Dinis
«Palhaços! rápidos!
À arena! à arena!
Quer-se uma cena
Que faça rir.
Exige-a o público
Em altas vozes;
Ide, velozes,
Ide-o servir!»
E os clowns lépidos
Ágeis, disformes,
Saltos enormes
No circo dão.
Soam frenéticas
Palmas e bravos.
Pobres escravos
Da multidão!
Danças ridículas,
Fingidas lutas,
Jogos, disputas,
Travam-se ali;
Ditos equívocos,
Palavras soltas,
Saltos e voltas...
E o povo ri.
Pertence ao número
Um clown idoso,
Curvo, rugoso,
Cheio de cãs;
Os membros trôpegos
De muita idade
Move à vontade
Das turbas vãs.
É ele o último
Dos companheiros,
Que, mais ligeiros,
Deixam-no atrás,
A turba indómita
Com grandes gritos
Ao som de apitos
Assuada faz.
E o velho cômico
Treme assustado
Do desagrado
De seu senhor.
Escusa lágrima
Cai-lhe escaldante...
«Palhaço, adiante!
Coisa melhor!»
E aquele mísero
Truão do povo
Tenta de novo
Fazê-lo rir.
Mas, pobre vítima!
Dos lados todos
Chufas, apodos
Vêm-no ferir.
E o velho, trêmulo,
Não deixa a cena,
Fazia pena
Vê-lo saltar,
Recresce a fúria
Nas galerias...
Velho, não rias!
Nobre é chorar!
Chora, sim, chora-te
Envergonhado
Do teu estado
De aviltação.
No pó olímpico
As cãs rojaste
E não coraste?!
Chora, ancião.
Porém, silêncio!
Que o velho fala;
Tudo se cala,
Tudo o escutou.
Em tom de súplica,
Com as mãos erguidas,
Estas sentidas
Vozes soltou:
«Sede magnânimos,
Meus bons senhores!
Que as minhas dores
São infernais!
Chorar no íntimo,
Rir no rosto!
Rir incessante!
Ai, que é de mais!
«Deponho a máscara,
Que vos ilude,
Já que não pude
Fazer-vos rir.
Este cilício,
Que me angustia,
Deixe este dia
De me pungir.
«Tenho família,
Filhos que choram,
Vozes que imploram
Pedindo pão.
Oiço a miséria
Bater-me à porta...
Velho, que importa?
Vai ser truão.
«Sentes decrépito
Tremer-te o braço?
Faz-te palhaço.
Que esperas? Vai!
Loucos escrúpulos,
Velho, refreia,
Perante a ideia
De que és... um pai.
«Meu choro, esconde-te,
Calai-vos, dores:
Estes senhores
Querem folgar.
Segue ao suplício
Os mais escravos.
Oh! dai-me bravos,
Que eu vou... dançar!»
Mas ai, falece-lhe
O alento ao velho,
Dobra o joelho,
Na arena cai.
Erguem-no pálido...
Aos mais palhaços
Decai dos braços
O truão, o pai.