António Pereira Nobre

ADEUS

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,

A tua casa que deixei lá!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

No meu regresso, que sol fará!

 

Adeus! Na ausência meses são anos,

Dias são meses, que aí são ais;

Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos,

Eu sou sozinho, tu tens teus Pais.

 

Adeus! Nas velas o Vento toca

«Aves» e «Paters» de imensa dor.

Enquanto rezas, fia na roca

Enquanto rezas, fia na roca

O linho branco do nosso amor.

 

Adeus! Paquete, que vais fugido

Com um Poeta lá dentro a orar!

Ai que destino tão parecido,

Andar aos ventos, ó Mar! ó Mar!

 

Adeus! Mar, quero que me respondas,

Aguas tão altas! dizei, dizei:

Quais mais salgadas ? as vossas ondas

Quais mais salgadas? as vossas ondas

Ou as que eu choro, que eu chorarei ?

 

Adeus! (Que é isto? treme o Paquete!)

Fiel me seja teu Coração:

Não que eu fechei-o num aloquete

E a chave é de oiro, trago-a na mão!

 

Adeus! O Vento soluça e geme,

O Mar, é negro, mas «lá» é azul…

Francês tão moço, que vais ao leme,

Francês tão moço, que vais ao leme,

Ah se pudesses voltar ao Sul!

 

Adeus (Piloto, que nuvens essas,

Façamos juntos o «pio sinal!»),

Menina e Moça, nunca me esqueças

Que eu tenho os olhos em Portugal!

 

Adeus. Um brigue de pano roto

Vede que passa, faz-nos sinais:

Tenha piedade, Sr. Piloto,

Tenha piedade, Sr. Piloto,

Seja pela alma dos nossos Pais…

 

Adeus! «St. Jacques», vai depressinha…

Meu Anjo, a esta hora, tu que farás ?

O Mar faz medo (Salve, Rainha…)

E tu, meu Anjo, tão longe estás!

 

Adeus! Tão longe, tão longe a terra!

Longe de tudo, longe de ti!

A trinta milhas, fica a Inglaterra,

A trinta milhas, fica a Inglaterra,

A uma (ou menos) a Morte, ali…

 

Adeus! Na hora de me deixares,

Já pressentias o meu porvir:

«Meu Deus!» disseste, mostrando os ares…

Mas era urgente partir! partir!

 

Adeus! Já faltam os mantimentos,

Falta-nos água, falta-nos luz!

Morrer, à lua, sem sacramentos,

Morrer, à lua, sem sacramentos,

Morrer tão novo, Jesus! Jesus!

 

Adeus! E os dias nascem e morrem;

Tanta água e falta para beber!

E já puseram (rumores correm)

Sola de molho para comer.

 

Adeus! — Bons dias, meu Comandante,

A nossa sorte… morrer, talvez…

E o rude velho segue pra diante:

E o rude velho segue pra diante: ~

— Morrer, meu Amo, só uma vez!

 

Adeus! — Gajeiro! — boa criança!

Que vais em cima no mastaréu,

Vê lá se avistas terras de França…

— Ah nada avisto, só água e céu!

 

Adeus! Ó Lua, Lua dos Meses,

Lua dos Mares, ora por nós!…

O Mar antigo dos Portugueses,

O Mar antigo dos Portugueses,

O Mar antigo dos meus Avós!

 

Adeus! Ai triste de quem embarca

Sem ver a sorte que o espera ao fim!

Façamos vela prá Dinamarca,

Que Hamlet espera no Cais por mim.

 

Adeus! À Vida sinto-me preso,

(Morrer não custa) pelas paixões…

Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso

Vamos ao fundo, meu Anjo, ao peso

Das minhas trinta desilusões!

 

Adeus! Que estranha Visão é aquela

Que vem andando por sobre o mar ?

Todos exclamam de mãos para ela:

«Nossa Senhora! que vens a andar!»

 

Adeus! A Virgem com um afago,

Pôs manso o Oceano, que assim o quis

O Mar agora parece um lago,

O Mar agora parece um lago,

O rio Lima do meu País!

 

Adeus! Menina, que estás rezando,

Desceu a Virgem e já te ouviu:

Agora, quero ver-te cantando,

A Santa Virgem já me acudiu.

 

Adeus! Os Ventos são meigas brisas

E brilha a Lua como um farol!

Ponde nas vergas vossas camisas,

Ó Marinheiros, que a Lua é o Sol!

 

Adeus! «St. Jacques» lá entra a barra,

Nossa Senhora vai indo a pé:

Com o seu cabelo fez uma amarra,

Lá vai puxando, que boa ela é!

 

Adeus! Eu parto, mas volto, breve,

A tua casa que deixei lá!

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

Leva-me o Outono (não tarda a neve)

No meu regresso, que sol fará!