Francisco de Sá de Miranda

Em Tormentos Cruéis

Em tormentos cruéis, tal sofrimento,

em tão contínua dor, que nunca aliva,

chamar a morte sempre, e que ela, altiva,

se ria dos meus rogos, no tormento!

 

E ver no mal que todo entendimento

naturalmente foge, e quanto aviva

a dor mais o vagar da alma cativa,

a quem não fará crer que é tudo um vento?

 

Bem sei uns olhos, que têm toda a culpa,

e são os meus, que a toda parte vêm

após o que vêem sempre e os desculpa.

 

Ó minhas visões altas, meu só bem,

quem vos a vós não vê, esse me culpa,

e eu sou o só que as vejo, outrem ninguém!