Júlio Dinis

A FOLHA SOLTA DO OLMEIRO

Virgens, que cedendo aos estos

Da paixão que vos abrasa,

Deixai a rogos funestos

Os santos lares da casa;

 

Vós, que ao maternal carinho

Fugis, sem dor nem saudade.

Desfolhando no caminho

As rosas da castidade:

 

Gravai, gravai na memória

Este conto verdadeiro;

É a dolorosa história

Da folha solta do olmeiro.

 

Presa na haste vigorosa

Vivia a folha virente,

Mirando-se buliçosa

Sobre os cristais da corrente.

 

Passavam ventos, passavam

Convidando-a a segui-los;

Segredos que assim trocavam

Não é dado referi-los.

 

E ela, vendo a borboleta

Livre no espaço, tremia

De paixão, de dor secreta,

De inveja que a consumia.

 

Inveja de liberdade,

Inveja de espaço e vida,

Um sonhar de mocidade,

Um aspirar de iludida!

 

«Oh! goza, inseto ligeiro,

Goza de espaço infinito,

Que eu neste meu cativeiro

Em vão me contorço e agito.»

 

E ao ver a folha da rosa

Levada pela corrente,

Até dela, desditosa,

Até dessa, inveja sente!

 

Um dia sopra uma aragem

Mais ardente e perfumada;

Corre do olmeiro a folhagem,

E foge com a namorada.

 

Ei-la solta; num momento,

Veloz no ar se elevava;

É livre enfim como o vento,

Deixou já de ser escrava.

 

E agora embriagada, entregue

Toda aos afagos da brisa,

Já do inseto os voos segue,

Sua ambição realiza.

 

Que novo viver! Que cenas!

Que existência tão completa!

Mas, ai, momentos apenas

Dura a ilusão da indiscreta.

 

Um ignoto desalento,

Um como faltar de vida

A toma; e ao sopro do vento

Baqueia desfalecida.

 

Pálida, murcha, já gasta

A seiva com que partira,

Segue ainda o vento que a arrasta

Pelo pó onde caíra.

 

O que a impelira ao perigo,

Agora a avilta e deprime!

Ai, quanta vez o castigo

Vem de quem nos tenta o crime!

 

Prossegue a fatal carreira,

Cumpre teu destino inteiro,

Morre entre a grama rasteira,

Aérea filha do olmeiro.

 

Ai, folha de triste sorte!

Que é do encanto futuro

Que sonhaste? Escura morte

Tens em sórdido monturo.

 

Virgens, gravai na memória

Este conto verdadeiro,

Que pode ser vossa a história

Da folha solta do olmeiro.