Júlio Dinis

UMA CONSULTA

— Dá licença? — Entre quem é.

— Muitos bons dias. — Olé,

Por aqui, minha senhora?

Desculpe vossa excelência

Se a não conhecia agora.

— Sem mais... À sua ciência

Recorrer venho .— Deveras?

(Senhor me dê paciência!

Nunca tu cá me vieras).

Então que temos ? — Padeço.

— Sim? porém de que doença?

— Essa é boa! acaso pensa

Que eu porventura a conheço?

— Ah! não conhece ? — Quem dera!

Então não o consultava.

— (E eu que muito estimava).

Mas diga, então? — Eu lhe conto...

Oiça bem. Não perca um ponto.

— Nem um ponto hei de perder.

— Ai, doutor, doutor, meu peito...

— É do peito que padece?

Quem havia de o dizer!

— E Jesus, doutor, parece

Que me quer interromper?!

Não era a isso sujeito.

— Nem o tornarei a ser...

Vamos lá. — Ora eu começo...

Atenção é o que lhe peço;

Diga-me: que lhe pareço?

Não me acha muito abatida?

— Assim, assim; mas às vezes

A vista pode enganar.

— Não, não. Pode acreditar

Que há já um bom par de meses

É um tormento esta vida.

— Então que é o que sente?

— O que sinto?

Ora eu lhe digo:

O doutor é meu amigo?

— Oh! senhora... — E é prudente?

Oiça, pois: Eu dantes era

Fera e rija, que era um gosto!

Ou em Dezembro ou Agosto

Correr o mundo pudera,

Sem no fim me achar cansada.

— E hoje? — Não lhe digo nada,

Nem comigo posso já.

 

— Mau é! — Quer saber, doutor?

Só para vir até cá,

Que tormentos não passei!

— Diga-me, se faz favor.

Que idade tem? — Eu nem sei...

Eu sou mais nova três anos

Que o reitor da freguesia.

— (É grande consolação!)

— Tenho ainda outros dois manos

Que mais velhos do que eu são,

Porém, como eu lhe dizia,

Doutor...—Que mais sente então?

— A vista sinto estragada,

Até já me custa a ler,

De mais a mais sou nervosa.

Isso não lhe digo nada!

Olhe, estou sempre a tremer.

— Faço ideia. — Andava ansiosa

Por consultar o doutor;

Eu tenho em si muita fé.

— Lisonjeia-me. — Outra queixa...

Que eu sofro também... Qual é?

— É de um forte mal de dentes.

Todos me caem. — Bem, bem.

— E os que restam, mal assentes,

Qualquer dia vão também.

— É provável. — Ai, doutor!

Que cruel enfermidade!

Não acha? — Acho e o pior...

— Há de curar-me, não há de?

— E então não sente mais nada?

— Nada... ai, sim, tem-me parecido,

Porém, talvez me iludisse...

— Diga. — A semana passada,

Como ao espelho me visse...

Pareceu-me ter percebido...

— O quê? — Que a pele não era

Como dantes, tão macia.

— E então? — Quem visse dissera

Que eram rugas. — (Eu dizia)

E é isso o que padece?

— Ainda pouco lhe parece,

Doutor? — Por certo que não.

— Então que doença tenho?

— Em sabê-lo muito empenho

Sempre tem? — Eu? Pois então?

Para isso o procurei.

— Bem, então sempre lho digo

Mas julgo não ficarei

Por isto, seu inimigo.

 

— O meu doutor! — O seu mal

É, senhora, de algum perigo.

— Ai Jesus! — E muita gente

Dele morre. — Oh santo Deus!

Por quem é não diga tal!

E... morre-se de repente?

— Conforme. — Pecados meus?

E então é isso o que pensa!

Porém ainda me não disse

O nome dessa doença

E eu sempre o quero saber...

— O nome? — Sim.— É… velhice!

— E o remédio? — Morrer.

 

Janeiro de 1860,

 

Nota do Autor — A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida

de um caso semelhante que me contaram.