Júlio Dinis
Ela vivia só naquela aldeia,
Sem ter um coração que a compreendesse,
Passei um dia ali, falei-lhe, amei-a...
Ai, se esses tempos esquecer pudesse...
E julgou-se feliz! Pobre criança!
Era feliz naqueles curtos dias,
E eu deixei-lhe nascer sem esperança
E sem porvir aquelas alegrias!
Oh! Como é sem piedade a juventude!
Como é cruel a idade dos amores!
Desfolhando as flores da virtude,
Como se fossem verdadeiras flores.
Sopra-se ao coração, que a nós se entrega,
A labareda de violenta chama.
E ao capricho cruel da paixão cega
Sacrifica-se tudo quanto se ama.
E eu fi-la entrever em doce enleio
De um mundo novo as mal sonhadas cenas;
E sentia-a corar e arfar-lhe o seio,
E delirante respirar apenas!
Parti, jurando amá-la toda a vida,
Pude fazer aquele juramento!
Ela ficou chorando-me iludida,
E eu paguei-lhe a ilusão com o esquecimento.
Perdido dos prazeres no tumulto,
Levado nessa rápida voragem,
Não mais pensei naquele doce vulto;
Nunca mais entrevi a sua imagem.
E ela?... Talvez no coração ferida
Por minha leviandade criminosa,
Vivesse dias de enlutada vida,
Sem ter na terra a sagração de esposa.
Ai, memórias cruéis do meu passado,
Como pungentes me feris agora!
Poupai, poupai-me o coração magoado,
Livrai-me do remorso que o devora.
Funchal – Abril de 1869