Júlio Dinis
(A meu primo e amigo José Joaquim Pinto Coelho)
Amigo, concede que as notas da lira
Te sagre num dia a que tantos sorri;
Se a triste, saudosa, de mágoas suspira,
Soará d'esperanças agora por ti.
Escuta-a; se as vozes são fracas, afeita
Que ela é desde muito com os cantos da dor,
O seu débil tributo, seus hinos aceita
Qual tênue perfume de lânguida flor.
Os anos são marcos na senda da vida,
Nos quais o viajante costuma parar,
E os olhos volvendo na estrada corrida,
As cenas passadas lhe apraz recordar.
Suspende um momento teus passos, suspende,
Na santa romagem que cumpres al,
E além, ao passado teus olhos estende,
Além, ao passado, contempla-o daqui.
Oh! pára, paremos, que as cenas doutrora,
Tão ricas de encantos, são minhas também;
Pois juntos nos vimos da vida na aurora,
E juntos passamos os anos além.
Além,- ao mais longe que avistam teus olhos,
Estende-os amigo; repara, que vês?
Formosa campina de flores, sem abrolhos,
Mais bela a distância, que ao perto talvez.
Ai — não te lembras ? — correu-nos a vida,
Qual linfa tranquila no prado em Abril,
De dia em folguedos a mente esquecida,
De noite enlevada por sonhos aos mil.
Ai tempos de encantos, ai fúlgidas cenas
Volvidas com os anos chorados em vão;
Ai, quanto mais gratas não são tuas penas,
Que a própria ventura que as outras nos dão!
Paremos, amigo, paremos ainda
A olhar esta quadra tão longe de nós;
Que a luz que a ilumina bem cedo se finda,
Que os entes que a adornam deixaram-nos sós.
Tão gratos nos eram da aurora os fulgores,
Como o último raio do dia a findar,
Que se uns ainda ao peito nos falam de amores,
As outras saudades vem-nos despertar.
Após esta parte da nossa jornada,
Tão bela e tão curta, lá se ergue uma cruz,
E eu, órfão mesquinho, na campa ignorada
Não pude ajoelhar-me, nem flores depus.
E as cinzas queridas... mas não, adiante,
Perdoa, perdoa, se esqueço o meu fim;
Ó lira, teus crepes arroja distante;
Ó alma, tuas dores divulgas assim?
Mas nesses instantes em que eu na orfandade
Aos ecos tão tristes falava da mãe,
Os laços ligando da nossa amizade,
As vestes de luto cingias também.
Porém nova quadra se segue. A corrente
Da vida mais turva para nós se mostrou;
Pequenos martírios que sofre o inocente
De que hoje nos rimos, o peito provou.
No meio de estranhos eu vi-me sozinho,
E assim na carreira das letras entrei.
A mão que os meus passos guiou com carinho
A morte roubou-ma, eu só caminhei.
Mas ainda então mesmo na vida de criança
A nossa amizade não pôde esfriar;
Nas horas votadas à grata folgança
De júbilo cheio te vinha encontrar.
Mais tarde ambos na senda da vida
Guiou-nos os passos benévola mão.
Recordas-te dele? Da imagem querida,
Da imagem saudosa do amigo, do irmão?
Que tempo, que cenas passámos unidos!
Prazeres, trabalhos, leituras comuns!
Ai, quantas saudades dos tempos volvidos
Me restam no peito, remorsos nenhuns!
Aquela nobre alma, já perto da morte,
Que negra adejava de si ao redor,
Mais nobre por isso, mais bela, mais forte,
Pra as lutas da vida nos dava calor.
O Sol à florinha que adorna a colina,
Já perto do ocaso não nega o luzir;
Sem ele os rigores da brisa ferina
Faziam-lhe o sopro da vida exaurir.
A estrada apontou-nos que afouto seguira,
E onde tão firme marchar sempre o vi,
Em nós verte o alento que a ele o inspira,
E pára ao dizer-nos: «Eu fico — parti!»
E a sombra seguindo do irmão, que lhe aponta,
Fugenta de esperanças a estrada do Céu,
A terra abandona, no empíreo desponta,
E cedo para sempre de nós se perdeu.
Ao ver-me sem ele sozinho na vida,
Faltaram-me as forças, tentei recuar,
Que a luz que me guiava, na campa sumida,
Em trevas profundas deixou-me ficar.
Mas ainda de novo para mim sua imagem,
Surgindo da campa, me veio sorrir,
Alento infundir-me, bradar-me: «Coragem!»
E eu, forte, sua obra não quis destruir.
Por outro caminho seguiste, contudo
De espaços a espaços cingimos as mãos:
Nas lides da vida, nas lides do estudo,
Jamais esquecemos o nome de irmãos.
Mil vezes à sombra do denso arvoredo
Falávamos ambos do nosso porvir,
Dos tempos passados, do ignoto segredo
Que dentro do peito tentava florir.
Ao fim da carreira, que ansiado trilhava,
Após mil fadigas enfim te encontrei;
Mas antes, de novo a dor nos magoava:
De um túmulo à beira contigo chorei.
Aos mares da vida teu barco lançaste:
Na margem parado, meu barco sustei.
É tempo! Partamos. Tu, forte, cruzaste
As ondas, e «Ao largo!» bradar escutei.
Mas lá que me espera? nas vagas furiosas
Veria afundar-se meu pobre baixei;
Vogando tão longe de praias formosas
Irá destruir-se num outro parcel?
Calai-vos, inquietos anelos de um peito,
Que muito receia, por muito querer;
Calai-vos, esperanças com que eu me deleito
Nas horas mais gratas de um triste viver.
Oh! deixa, deixemos tão longo horizonte,
Que vago e obscuro para todos ele é:
Deixemo-lo, amigo, 'té quando desponte,
Esperemo-lo fortes de esperança e de fé.
E a vista lancemos mais perto: no espaço
Bem curto em distância, de afetos maior,
Que vemos? Os entes, que um cândido laço
Reúne em família com santo fervor.
Nos rostos que anima fulgente alegria,
Amor e ventura bem fácil se lê;
E a ideia que é hoje de encantos um dia,
O seio lhes enche de júbilo. Vê.
Louvemos o Eterno, que assim te permite
Provar de uma taça tao pura e sem fel;
Saudemos o dia que aos rostos transmite
Os gozos, que verte no peito fiel.
Desviemos o rosto das nuvens passadas,
Fechemos os olhos às trevas por vir,
E as horas presentes, à paz consagradas,
Gozemos; gozemos tão belo existir.
E agora perdoa se as notas da lira
Num dia como este, que a tantos sorri,
As vezes, saudosa de mágoas, suspira,
Em vez de esperanças soar só por ti.
20 de Outubro de 1861