Francisco de Sá de Miranda

Soneto XXXI.

Quando eu, senhora, em vos os olhos ponho

E vejo o que não vi nunca, nem cri

Que houvesse ca, recolhe se a alma a si

E vou tresvaliando como em sonho.

 

Isto passado, quando me desponho

E me quero afirmar se foi assi,

Pasmado e duvidoso do que vi,

M’espanto ás vezes, outras m’avergonho.

 

Que, tornando ante vos, senhora, tal,

Quando m’era mister tant’ outra ajuda,

De que me valerei se a alma não val?

 

Esperando por ela que me acuda,

(E não me acode, e está cuidando em al!)

Afronta o coração, a lingua é muda.