Francisco de Sá de Miranda
Quando eu, senhora, em vos os olhos ponho
E vejo o que não vi nunca, nem cri
Que houvesse ca, recolhe se a alma a si
E vou tresvaliando como em sonho.
Isto passado, quando me desponho
E me quero afirmar se foi assi,
Pasmado e duvidoso do que vi,
M’espanto ás vezes, outras m’avergonho.
Que, tornando ante vos, senhora, tal,
Quando m’era mister tant’ outra ajuda,
De que me valerei se a alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
(E não me acode, e está cuidando em al!)
Afronta o coração, a lingua é muda.