Marquesa de Alorna
Amáveis solidões, bosques sagrados,
Que nas noites tranquilas livremente
Prestais um doce abrigo aos desgraçados;
Dos meus olhos a límpida corrente
Deixai-me desatar; suspiros, brados,
Expliquem sem receio o que a alma sente.
Tu, Cíntia, cuja luz fraca e serena
Parece que de Cária refletira,
Não culpes o que indica a minha pena.
Se em minha alma inflamada Amor delira,
Desculpas deste mal, que um gesto ordena,
As dera Endimião, se não dormira.
Males tão novos, males tão tiranos
Vão consumindo a minha triste vida,
A doce primavera dos meus anos;
Que até tenho a memória já perdida
Daqueles suavíssimos enganos,
De que a lembrança me era tão querida.
Aqueles prados vejo que algum dia,
Mesmo apesar da pálida tristeza,
Doiravam mil indícios de alegria;
Tão agrestes, tão cheios de aspereza,
Que só inculcam morte; nem já sinto,
De alheia, responder minha firmeza...
Um não sei quê de falso lhe pressinto
Naquela que fez meus contentamentos,
Que em chamar-lhe o meu bem não sei se minto.
Consequências fatais de uma saudade!
Que me tem a tal ponto reduzido,
Que nem sei esperar felicidade!
Vou vivendo por modo que duvido
Alguns instantes se serei já morta:
Tal anda com meus males meu sentido.
São isto extravagâncias da ventura,
Que chegam a obrigar quem, como eu, passa
A não saber se está na sepultura.
Mas sou tão costumada com a desgraça,
Que duvido, se acaso o bem tivera,
Até que o mesmo bem me satisfaça.
Porque Fortuna vária é tão severa,
Que, se me vir ao mal habituada,
Então me dará bens que eu não quisera.
Falsos bens, falso amor e falsa glória,
Tiranos que iludis quanto imagino,
Ou vinde, ou me fugi já da memória!
Mas se ordena que eu morra o meu destino,
Dure depois da morte a tema história
Do que eu sofro por um gesto divino.
Se à Ninfa, que de amores se perdeu
Pelo Moço gentil que a desprezava,
Depois da morte a voz se concedeu,
Eu suspiro como ela suspirava,
Eu choro, e só procuro, justo Céu,
Testemunhe o meu pranto o que eu chorava.
Depois de terminados os meus dias,
Neste vale se escutem meus gemidos,
Intérpretes das minhas agonias.
Os rios dos meus olhos submergidos
Não sejam; respeitai, selvas sombrias,
De mim meus ais, meu pranto divididos.
Basta já, males meus! Para matar-me,
Mais nada se precisa que as lembranças
Do quanto vós sabeis atormentar-me.
Mas na perda das minhas esperanças,
Se da Parca depressa encontro o corte,
Na morte contra vós tenho as vinganças,
Pois não podeis vencer-me além da morte.