Marquesa de Alorna

À feliz reconciliação de Portugal e Brasil

Quia multis et magnis tempestatibus

vos cognovi fortes fidosque mihi...

SALÚSTIO

 

 

Nunca a lisonja mascarada pôde,

Por mais que me acenasse com a fortuna,

Extrair-me da mente uma só rima

Em cortesana gala.

 

Hoje sobre a minha alma funde o Estro;

Qual águia vigorosa me arrebata

Ao magnífico alcáçar que alumia

A presença de Febo.

 

Enfio a senda que trilharam Vates,

E em majestoso assento avisto aqueles

Que hoje na terra, em pó, calados jazem,

No sepulcral silêncio.

 

Um se levanta, e grita: – «Alcipe!... Alcipe!...

Toma o laúde, a Pátria afoita aplaude!

Canta como cantei, alteia as vozes,

Tanto o assunto demanda.»

 

A auréola que a egrégia frente lhe orna

Mais brilhante parece, mais realça

O Vate, que, atrevido, Apolo encara,

E altivo assim lhe fala:

 

– «Vales tu, Deus lustroso, o nosso Nume,

Que com mão paternal do trono emborca

Sobre os Povos torrentes de sossego,

Há tanto foragido?...

 

Repartiste do Céu o azul domínio

Com o teu Faetonte? Acaso em áureo laço,

Ao teu coração preso, lhe impediste

Precipitada queda?

 

Os teus raios acaso, competindo,

Na miúda atenção, com a Providência,

Depositam nas mãos do filho um sólio?

Domam feroz discórdia?

 

Espavorida aos antros se retira

Essa filha do Caos; brama, espuma,

Enquanto vem guiando horas ditosas

Afortunados dias;

 

Dias de paz, cercados dos sorrisos,

Com que as Graças decoram a Abundância

Em que, sem deslustrar-se a dignidade,

Se afortunam Impérios.

 

Do mar, vedado à Indústria, se abre a porta;

Da Fluminense praia varre ambages

Astuta a Sapiência e a dextra augusta

Do melhor dos Monarcas.

 

Quem do futuro o véu levantar pode?

Quantos bens tem o cofre do Destino

Ainda aferrolhados, mas previstos

Pelo Pai, pelo Filho!

 

Ingratos corações, sufocai sustos!

A grandeza, a extensão reside em almas!

Prestai meios de glória a quem vos rege,

Vencei as Sirtes de África!

 

Mora no seio de espelunca ignota,

Insondável aos míopes humanos,

Uma Deusa, que paga heroicos feitos

Com prémio inacessível.

 

Seu cortejo são séculos e séculos,

Heras, que em seus domínios reverdecem;

Ornam seus aposentos áureos cofres,

Cheios de grandes nomes.

 

São palmeiras gigânticas que assombram

O pórtico da entrada. Lusitanos!...

Com fadigas honrosas apressai-vos

A colher os seus ramos!

 

Gama, Cabral, zombando de borrascas,

(Como vós podeis ir) foram colhê-los:

Vencei Númidas, renovai Palmiras,

Ganhai a Eternidade!»