Júlio Dinis
Enfim! enfim! encontrei-te.
Luz há tanto suspirada!
Raiaste, aurora fadada
De um longo dia de amor!
Resplandece,
Sol brilhante
Da primavera da vida!
Surge, surge, estrela querida,
Que tão grato é teu fulgor!
Se soubesses como ansioso
Aguardava este momento,
Que há tanto no pensamento
Me aprazia em conceber!
Se soubesses, minha esperança,
Que anelar ardente e incerto
Na aridez deste deserto
Me fazia esperar e crer!
Ai, bem-vinda, mensageira
De uma indizível ventura!
A uma vida de amargura,
Ridente imagem, põe fim!
Para longe esta tristeza,
Vejo enfim formosos dias!
Oh! dá-me, dá-me alegrias,
Que me cansa a vida assim!
Qual a terra desflorida
Pelas mãos do Inverno agreste,
Que de gelos a reveste,
E lhe afrouxa a luz do Sol;
Cinge as vestes de verdura,
Toda de amor palpitante,
Qual virgem junto do amante
Da Primavera ao arrebol;
Tal minha alma envolta em trevas
De um passado de incerteza,
Rasga o seu véu de tristeza,
Ao ver-te surgir, amor!
E num hino de alegria
Saúda a risonha aurora,
Que deslumbrante a namora
Com fatídico fulgor,
Bela flor, fragrante rosa
Nos agros campos da vida,
Entre as outras escondida,
Como pudeste florir!
Como os vendavais furiosos
Das tempestades humanas,
Em suas fúrias insanas
Te não puderam ferir?
Foi condão do Céu por certo,
Foi talvez aura celeste
Que, ao nasceres, recebeste
E em ti se difundiu;
E, forte, desceste ao mundo,
Brilhando de luz divina;
Essa luz que me fascina,
Que nas trevas me sorriu!
Também, tu, bela, aspiravas
A um futuro vago ainda?
Também uma dita infinda
Te pedia o coração?
Ai, conta-me os teus segredos,
Os teus sonhos, teus anelos,
Conta-me, quero sabê-los:
Os teus sentimentos meus são.
Diz-me se naquele instante,
Em que te vi meiga e bela,
Quando tu, formosa estrela,
Te elevaste no meu céu,
Uma voz misteriosa,
Prendendo-te em doce enleio,
Segredar-te ao ouvido veio:
«Ama! teu dia nasceu!»
Diz-me, se ao viver inquieto
Por não sei que oculta chama
Não sucede, quando se ama,
Uma existência de paz?
Se no horizonte sombrio,
Novo astro fulgurando,
Longínquas praias mostrando,
Venturas ver-te não faz?
Conta-me a vida passada
Antes do mágico instante
Em que te vi radiante
Meiga visão a sorrir.
Diz-me os teus jogos da infância
As lágrimas que verteste,
As penas que padeceste,
Sem eu as poder sentir.
Tu choravas! quando longe
Eu de ti, talvez sorria!
Tu choravas! e eu podia
Tão indiferente viver!
Oh! não! mística influência,
Que dois entes num só liga,
Embora longe, os obriga
Um com outro a padecer.
E é esse, esse o segredo
Da tristeza indefinida,
Que em certas horas da vida
Nos oprime o coração;
Esse o segredo das lágrimas,
Que de olhos virgíneos correm,
E dos suspiros que morrem
Nas asas da viração
Mas deixemos o passado,
Suas penas, suas dores,
Deixemos auras melhores
Nos manda o porvir de além,
Qual no meio do oceano,
Após longínqua viagem,
Ao nauta fragrante aragem
Da Pátria falar-lhe vem.
Em que mago encantamento
Esta dita a alma me embebe!
Só quem o sente o concebe;
Não se exprime este prazer!
Bem hajas, cândida virgem!
Bem hajas tu, que no seio
De aspirações todo cheio,
O amor fizeste nascer!
Adeus pois, passado triste,
Longas horas de amargura;
Adeus, paz da sepultura,
Sem encantos para mim;
Adeus sofrimentos vagos,
Adeus, febris pensamentos;
Esperam-me outros momentos,
Que o amor surgiu enfim.
Acorda pois, ó minha alma,
Chegou enfim a tua festa;
E qual se adorna a floresta
Da manhã ao grato alvor,
Veste também tuas galas,
O teu mais florido manto
E leva um sentido canto
Ao sol da vida, ao amor!
Julho de 1859.
Nota do Autor. — Em vez de — enfim — antes lhe devera chamar — rebate
falso. A ser mais de que um sonho, não passou de um desejo. Não se deve
portanto tirar ilações arrojadas porque seriam falsas.