Marquesa de Alorna
Imitação de um poema alemão de autor desconhecido
Moram dois Cisnes no mar
Que evitam com susto a praia.
Sua alvura faz cegar,
Sua luz como o Sol raia.
Entre juncos e salgueiros
Que, numa penha musgosa
Que forma a cela de um monge,
Lançam sombra pavorosa,
Esta veda a luz do dia,
E aumenta a melancolia.
Só do teto do Castelo,
De entre o musgo gotejante
Espreitando, os olhos rompem
O ambiente verdejante.
Então ao longe apercebem
Os dois Cisnes prateados,
Seus gestos, e que repousam
Com os colos enlaçados.
Quando as dunas e os outeiros
Vai prateando o luar,
Sobre o flutuante espelho
Vêm-se os cisnes navegar.
Um deles aflito vira
Para trás a vista amarga,
Como quem leva saudades
Do doce asilo que larga.
Quando o Sol nasce, desmaiam
Pela manhã as estrelas,
Toca a sineta do claustro
Das penitentes donzelas,
Então cada qual dos cisnes
Na fugida se disputa,
E com rápida carreira
Procura a sombria gruta.
Por este modo lidaram
Muito tempo nestes lares;
E a Fama já lhes chamava
Dois amantes singulares.
É feliz quem vive amando
Em suave companhia;
Do seu bem se não separa
Um só instante, um só dia.
Nisto um sonoro gemido
Retiniu na praia um dia,
Motivado duma flecha
Que o peito a um deles feria.
De sangue purpúreo jorro
Pelo golpe lhe saiu,
E com ele o folgo, a vida
Para sempre lhe exauriu.
O companheiro fiel,
Junto dele vigiando,
Nem comida, nem socorro
Quis ir de alguém aceitando.
Do alvíssimo cadáver
Cobriu com junco a ferida,
E por três dias e noites
Canta a fatal despedida.
Triste Cisne! melhor fora
Acabar também agora.
Muito mais sofre que a morte
Q nem perpetuamente chora,
Q nem com olhos quebrantados
Chora os casos passados.