Gil Vicente

A chegada à Igreja

Auto da Alma

Anjo

Sequer dai dous passos ora,

até onde mora

a que tem o mantimento

celestial.

 

Ireis ali repousar,

comereis alguns bocados

confortosos;

porque a hóspeda é sem par

em agasalhar

os que vem atribulados

e chorosos.

 

Alma

É longe?

 

Anjo

Aqui mui perto,

Esforçai, não desmaieis!

E andemos,

qu'ali há todo concerto

mui certo:

quantas cousas querereis

tudo tendes.

 

A hóspeda tem graça tanta,

far-vos-á tantos favores!

 

Alma

Quem é ela?

 

Anjo

É a madre Igreja Santa,

e os seus santos Doutores.

I com ela.

Ireis d'i mui despejada,

cheia do Spírito Santo

e mui fermosa.

Ó Alma, sede esforçada!

Outra passada,

que não tendes de andar tanto

a ser esposa.

 

Dia.

Esperai, onde vos is?

Essa pressa tão sobeja

é já pequice.

Como! Vós, que presumis,

consentis

continuardes a igreja,

sem velhice?

Dai-vos, dai-vos a prazer,

que muitas horas há nos anos

que lá vem.

Na hora que a morte vier,

como se quer,

se perdoam quantos danos

a alma tem.

 

Olhai por vossa fazenda

tendes umas escrituras

de uns casais,

de que perdeis grande renda.

É contenda,

que leixaram às escuras

vossos pais;

é demanda mui ligeira,

litígios que são vencidos

em um riso.

Citai as partes terça-feira,

de maneira

como não fiquem perdidos,

e havei siso.

 

Alma

Cal'-te por amor de Deus!

leixa-me, não me persigas!

Bem abasta

estorvares os heréus

dos altos céus,

que a vida em tuas brigas

se me gasta.

Leixa-me remediar

o que tu, cruel, danaste

sem vergonha,

que não me posso abalar,

nem chegar

ao lugar onde gaste

esta peçonha.

 

Chega a Alma diante da Igreja.

Anjo

Vedes aqui a pousada

verdadeira e mui segura

a quem quer vida.

 

Igrej.

Oh! Como vindes cansada

e carregada!

 

Alma

Venho por minha ventura,

amortecida.

 

Igrej.

Quem sois? Pera onde andais?

 

Alma

Não sei pera onde vou;

sou salvagem,

sou uma alma que pecou

culpas mortais

contra o Deos que me criou

à Sua imagem.

 

Sou a triste, sem ventura,

criada resplandescente

e preciosa,

angélica em fermosura,

e per natura,

como raio reluzente

lumiosa.

E por minha triste sorte

e diabólicas maldades

violentas,

estou mais morta que a morte

sem deporte,

carregada de vaidades

peçonhentas.

 

Sou a triste, sem mezinha,

pecadora obstinada,

perfiosa;

pola triste culpa minha,

mui mesquinha,

a todo mal inclinada

e deleitosa.

Desterrei da minha mente

os meus perfeitos arreios

naturais;

não me prezei de prudente,

mas contente

me gozei com os trajos feios

mundanais.

 

Cada passo me perdi;

em lugar de merecer,

eu sou culpada.

Havei piedade de mi,

que não me vi;

perdi meu inocente ser,

e sou danada.

E, por mais graveza, sento

não poder-me arrepender

quanto queria;

que meu triste pensamento,

sendo isento,

não me quer obedecer,

como soía.

 

Socorrei, hóspeda senhora,

que a mão de Satanás

me tocou,

e sou já de mi tão fora,

que agora

não sei se avante, se atrás,

nem como vou.

Consolai minha fraqueza

com sagrada iguaria,

que pereço,

por vossa santa nobreza,

que é franqueza;

porque o que eu merecia

bem conheço.

 

Conheço-me por culpada,

e digo diante vós

minha culpa.

Senhora, quero pousada,

dai passada,

pois que padeceu por nós

quem nos desculpa.

Mandai-me ora agasalhar,

capa dos desemparados,

Igreja Madre.

 

Igrej.

Vinde-vos aqui assentar

mui devagar,

que os manjares são guisados

por Deus Padre.

 

Santo Agostinho doutor,

Jerónimo, Ambrósio, São Tomás

meus pilares,

servi aqui por meu amor,

a qual milhor.

E tu, Alma, gostarás

meus manjares.

Ide à santa cozinha,

tornemos esta Alma em si,

por que mereça

de chegar onde caminha,

e se detinha.

Pois que Deus a trouxe aqui,

não pereça.