Marquesa de Alorna

Glosa

Márcia(*), lá naquela serra

Todo o bem deixei contigo;

Somente veio comigo

A mágoa que o peito encerra.

Meu pranto regando a terra,

A ideia lá me arrebata

Àquela pura cascata,

Junto à qual vivi contente;

Mas tal lembrança ao presente

De que serve, ó sorte ingrata?

 

[() Minha irmã. Alude ao tempo de Sintra, em que estivemos juntas (Nota da Autora).] *

 

Vivendo nesta espessura,

Sem ter do alívio esperança,

Uma tão doce lembrança

Faz mais grave a desventura.

Ó sorte inimiga e dura!

Basta que na triste história

Tenhas completa vitória;

A vida e a infelicidade

Me rouba, ou, por piedade,

Do bem passado a memória.

 

Mas se o bem que então logrei

Foi tanto, Márcia querida,

É fácil perder a vida,

Esquecê-lo não poderei.

Quanto é cruel bem o sei

Ter a perda no sentido;

Mas neste caso duvido,

Sendo um mal e outro possível,

Se é pior ser insensível,

Se a lembrança do perdido.

 

Ser mais triste pouco importa;

Se já perdi a esperança

De algum bem, sofra a lembrança

Deste quem o mal suporta.

A muitos tristes conforta

O gosto de antiga história;

Porém a mim tal memória

Só me acrescenta o cuidado,

Porque já meu triste estado

Torna em pena toda a glória.