Júlio Dinis
Ai, quem me dera em Sevilha,
Onde a travessa espanhola
Sob a elegante mantilha
As negras trancas enrola.
Na arcada da sé famosa
Vê-la entrar, tal como o sonho!
Entre coquete e piedosa,
Rosto entre grave e risonho;
Mergulhar na água benzida
A mão pequena e elegante,
E entre a turba ali reunida
Distinguir o olhar do amante,
Aos pés do altar, de joelhos,
Os olhares alternando
Com a letra dos Evangelhos
E uns olhos que a estão fitando:
Aos pobres juntos à porta
Dar a caridosa esmola,
O óbolo que conforta,
A palavra que consola;
Passar por os curiosos,
Que se demoram para vê-la,
Baixando os olhos formosos
Sem se tornar menos bela;
E elevá-los de repente,
Em sítio certo e ajustado,
A encontrar o olhar ardente
De um ardente namorado;
Seguir as ruas ligeira
Como a andorinha das praias,
Soltando aos ventos, inteira,
A vasta roda das saias;
Agitar na mão nervosa
A rápida ventarola
Com aquela arte misteriosa
Que só sabe uma espanhola;
Entrar na casa, em que mora,
Abrir o quarto elegante,
Orar a Nossa Senhora,
Sorrir à imagem do amante;
Pousar a leve mantilha,
Descobrindo as negras trancas,
Onde o sol reflete e brilha
Como sobre as ondas mansas.
Sentada ao piano aberto
Dedilhar uma harmonia,
Enquanto que o olhar incerto
Vai da alcova à gelosia;
Afastar-se de repente,
E, como que por encanto,
Romper febril e impaciente
Em inexplicável pranto;
E na alcova recatada...
Pára, pára, fantasia,
Como ias longe, coitada,
Sonhando da Andaluzia!
1868