Júlio Dinis

NA MADEIRA

Vi-a chegar. Nas faces descoradas

Trazia escrito o seu fatal destino.

Nem o sol destas plagas perfumadas

Pôde corar-lhe o rosto peregrino.

 

Vi-a chegar. Um mar de águas serenas

Trouxera-a no regaço brandamente,

Manso, tão manso, embalando-a apenas

Como se embala um berço de inocente.

 

Pobre criança pálida e formosa

Já condenada a inevitável sorte!

As auras desta ilha milagrosa

Não te podiam defender da morte!

 

Ao princípio, um clarão de vaga esperança

Raiou no seu olhar amortecido;

Mas ai, que breve rápida mudança

Deu a essa ilusão um desmentido.

 

Nós todos, que corríamos a vê-la

Fitando o mar com olhos lacrimosos,

Nós todos, exilados bem como ela,

Rodeamos-lhe o túmulo saudosos.

 

Queríamos-lhe tanto! àquela vida

Dir-se-ia que as nossas se ligavam:

Era como que a filha estremecida

De todos, porque todos a adoravam.

 

Vi-a partir. As pálpebras cerradas,

Pálido e frio o rosto peregrino,

Sobre o nevado seio as mãos cruzadas,

E em tudo um raio do clarão divino.