Júlio Dinis
Como eu gostava de vê-lo!
Aquele ancião venerado
Com seu nevado cabelo,
E com o seu rosto corado!
Oitenta anos já contava,
Mas ainda firme e direito;
Todos, quando ele passava,
Saudavam-no com respeito.
Se ele era um pai para todos!
O anjo daquela gente!
Ouvia-os com tão bons modos,
Sem dar mostras de impaciente!
Quantas demandas desfeitas
Por seu prudente conselho!
E quantas alianças feitas
Pelas mãos daquele velho!
As raparigas, chorosas,
Confiavam-lhe seus amores;
As desoladas esposas
Os seus caseiros dissabores;
Os homens os seus ciúmes;
As mães filiais desgostos;
E ele ouvia esses queixumes,
E alegrava aqueles rostos.
Quando o mal era sem cura,
Inda então lhes dava alento;
Bastava a sua figura
Pra dar paz ao pensamento.
Brincava com as crianças,
Sem nunca mostrar fastio;
Folgava de ver as danças
E os cantos ao desafio.
Mas se as funções exercia
Do seu grave ministério,
Outro homem parecia;
Tornava-se grave e sério.
Com orgulho se ufanava
De ser o juiz do povo,
E cada ano que chegava,
Ele era eleito de novo.
Um dia, uma pobre velha,
Quando terminava a missa,
Aos pés dele se ajoelha,
Bradando a chorar: «Justiça!»
Ele ergue-a com modo brando,
E à pobre mulher pergunta:
— «Diga, porque está chorando?
E o povo à roda se junta.
— «Senhor, a filha que eu tinha,
Doce alma da minha vida,
Única alegria minha,
Minha filha, está perdida!»
— «Perdida?!» — «Juro a verdade!»
— «Como? Fale». — «Ouvi, ouvi-me!
Se há um Deus no Céu, não há de
Deixar impune este crime.
«Aquela pobre criança,
A tanto custo criada,
A minha única esperança,
Por um vil foi enganada!»
— «E como é que ele se chama,
O que fez tal vilania?»
— «Ai senhor», a velha exclama, «É seu filho!»
E o povo ouvia.
E o juiz eleito tranquilo
A velha, que o rosto esconde,
Como se temesse ouvi-lo,
Estas palavras responde:
— «Sossegue, mulher; se é certo
O que, chorando, assegura,
O remédio está bem perto
Para essa desventura.
«Já que a ser juiz me atrevo,
Hei de ser juiz deveras
E em casa exercitar devo
As justiças mais severas.
«De outro modo enganaria
Este povo que me elege:
A mesma lei que a ele o guia,
É a mesma que me rege.»
Logo rompe dentre a gente
Que o juiz escutava em pasmo,
Um brado rijo e valente,
E sobre alto o entusiasmo.
E alguns dias mais passados
A pobre filha da velha,
Junto aos altares sagrados,
Com seu noivo se ajoelha.
Ao acto o juiz assiste,
O povo o vê com respeito,
A noiva tinha o ar triste,
O juiz cingiu-a ao peito.
— «Alegre-se, minha filha,
Erga a cabeça bem alta;
Aqui sou eu quem se humilha,
A menina quem se exalta.
«Sim, sou eu o que me humilho,
Porque esta bênção redime
A si de um erro, e ao meu filho
De mais que um erro, de um crime.»
Oh! sim, era um gosto vê-lo,
Aquele ancião venerado!
Que tipo de homem tão belo!
Que caracter tão honrado!
Funchal — Abril de 1869.