António Pereira Nobre

Canção da felicidade

Ideal dum Parisiense

 

Felicidade! Felicidade!

Ai quem me dera na minha mão!

Não passar nunca da mesma idade,

Dos 25, do quarteirão.

 

Morar, mui simples, nalguma casa

Toda caiada, defronte o Mar;

No lume, ao menos, ter uma brasa

E uma sardinha pra nela assar…

 

Não ter fortuna, não ter dinheiro,

Papeis no Banco, nada a render:

Guardar, podendo, num mealheiro

Economias pro que vier.

 

Ir, pelas tardes, até á fonte

Ver as pequenas a encher e a rir,

E ver entre elas o Zé da Ponte

Um pouco torto, quase a cair.

 

Não ter quimeras, não ter cuidados

E contentar-se com o que é seu,

Não ter torturas, não ter pecados,

Que, em se morrendo, vai-se pro Céu!

 

Não ter talento; suficiente

Para na Vida saber andar,

E quanto a estudos saber somente

(Mas ai somente!) ler e contar.

 

Mulher e filhos! A Mulherzinha

Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!

E, em nove meses, vê-la choquinha

Como uma pomba, dar outra à luz

 

Oh! grande vida, valha a verdade!

Oh! grande vida, mas que ilusão!

Felicidade! Felicidade!

Ai quem ma dera na minha mão!