Júlio Dinis

DAI-ME DO CAMPO

«Dai-me do campo as mais festivas flores,

Não as quero saudosas;

Quero-as alegres, de risonhas cores,

Como os cravos e as rosas.

 

«Deixemos a violeta, essa morena

Habitante das relvas.

A delicada, a pálida açucena,

Deixemo-la nas selvas.

 

«Uma é negra, traz vestes de tristeza,

Vem de luto trajada;

Outra, lembra nas cores da pureza,

Virgem inanimada.

 

«Não as quero, que podem essas flores

Renovar na memória,

As mal curadas, as pungentes dores,

De uma recente história.

 

«O caminho da existência

É então grato e florido.

Ai! Bem fácil é o olvido

De tudo o que a alma sofreu!

Como à roseira da várzea

Que todo o ano floresce,

A cada flor que fenece

Uma outra flor sucedeu.

 

«Uma outra flor, e mais bela

E cada vez mais viçosa.

Uma outra flor, outra rosa,

Ou antes, outra ilusão.

Nunca, nunca o desalento

Extingue o fogo sagrado

Que arde no altar consagrado

Que se chama o coração.»

 

1864.