Mário de Andrade
Paulicéia Desvairada
Minha Londres das neblinas finas !
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Ha neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito fr io ...
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arleifuinal !...
Ha duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol,
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá. . . A guarda-civica ! Prisão !
Necessidade a prisão
para que haja civilização ?
Meu coração sente-se muito triste. . .
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...
Meu coração sente-se muito alegre !
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir !
E sigo. E vou sentindo,
á inquieta alacridade da invernia,
como um gôsto de lágrimas na boca. . .