Francisco de Sá de Miranda

A Nossa Senhora

VI

Virgem e madre juntamente, quem

Tal nunca ouviu nem d’antes nem despois

Senão em vós? quem foi o que o entendeu?

 

Vós madre e filha, vós esposa sois

D’aquelle que apertado ao peito tem

Os vossos braços sanctos, outro céo.

Na vossa alta humildade se venceu

O soberbo tyranno

Que com inveja e engano

Nos fez tão perigosa e longa guerra:

Em mulher começou tal damno nosso;

Quem nos restituiu,

De vós sahiu, Senhora: o preço é vosso!

 

VII

Virgem, nossa esperança, um alto poço

De vivas aguas, donde a graça corre

Em que se matam para sempre as sedes;

Não de Nembroth, mas de David a torre,

Donde soccorro espero ao meu destroço,

Assi tão perseguido como vèdes,

D’entre tão altas, tão grossas paredes,

De ferro carregado,

Um coração coitado

Chama por vós involto em bastas redes.

Esse que eu sou, signaes inda alguns tenho

De ser do vosso bando,

Que a vós bradando por piedade venho.

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