Luís Vaz de Camões

Qualquer outro Bem Julgo por Vento

Quando da bela vista e doce riso

Tomando estão meus olhos mantimento,

Tão enlevado sinto o pensamento,

Que me faz ver na terra o Paraíso.

 

Tanto do bem humano estou diviso,

Que qualquer outro bem julgo por vento;

Assi[m] que, em caso tal, segundo sento,

Assaz de pouco faz quem perde o siso.

 

Em vos louvar, Senhora, não me fundo,

Porque quem vossas cousas claro sente,

Sentirá que não pode conhecê-las.

 

Que de tanta estranheza sois ao mundo,

Que não é de estranhar, Dama excelente,

Que quem vos fez fizesse céu e estrelas.