Marquesa de Alorna
Escutai-me, altos muros pavorosos,
Regiões de silêncio e de amargura!
Canções de mágoa pura
Gemente solte a lira ao desamparo.
Volve a elástica luz aos Céus formosos,
Se Febo a manda ao vale;
Mas em vão quere a sorte que eu me cale,
Forçando o mesmo Febo a ser avaro.
No peito aflito surge novo canto;
Nasce em nós a harmonia da tristeza;
Exprime com clareza
Um triste a dor que sente, as mágoas suas;
A lira move mais lavada em pranto,
Que de louro virente
Pela Musa enramada, alegremente
Cantando Amor e as lindas Graças nuas.
Que momento haverá que me não desse
Assunto a canto lúgubre e sentido?
Que gesto embravecido
De Fortuna sem tino se olharia
Que contra mim bramindo não volvesse
As mãos estragadoras?
Que não faça colheita em curtas horas
Dos mais ténues indícios de alegria?
Vi daqui a inocente Liberdade,
Qual uma pomba cândida e mimosa,
Vir pousar-se, gostosa,
Sobre os mesmos grilhões que arrasto aflita;
Mas quando o peito (asilo de amizade)
Com as asas branda afaga,
Repara que Fortuna tudo estraga,
E volta aos leves ares onde habita.
Com vagos pensamentos e suspiros
Que um doce, ignoto fogo em mim criava,
O lindo Amor chamava,
A quem nunca pensei fosse importuna
A reclusa inocência dos retiros;
Mas o rapaz medroso,
Sem dó do triste peito lastimoso,
Nunca me ouviu, com medo da Fortuna.
Vibrava o ar ligeiro, terno acento,
Tecido na inflamada fantasia;
Somente o ar gemia,
E aos reflexos que Délio cintilava,
Só trabalhava o simples pensamento.
Assim meus cruéis danos
Menos ríspidos fiz, menos tiranos
– E disto o mundo estulto murmurava!...
Já tudo me fugiu, já não escuto
Mais que o surdo rumor que a mágoa excita.