Marquesa de Alorna

Poder do génio e da razão

Espírito, que rompes leve os ares,

E ou já no seio amável de Polímnia,

Ou sobre vários mundos, Pindos novos,

Discorres sem limite;

 

Vê em torno de ti minhas cadeias,

Em pedaços desfeitas; os estorvos,

Objetos do teu riso e teu desprezo;

Bate ligeiro as asas!

 

Quem pode constranger a ideia humana?

Quem da firme razão quebra o ditame,

Opondo-lhe distâncias, ferros, muros?

Quem nos divide, Agrário? (*)

[() Agrário, meu pai, que estava então preso no Forte da Junqueira (Nota da Autora).] *

 

Aqui, onde a matéria me circula

E o curto espaço quase me sufoca, (*)

Fechando os olhos, triste, ao negro objeto

Que os grilhões me apresentam,

[() Aludo à minha cela no Convento de Chelas (Nota da Autora).]*

 

A mente me rodeia a luz de Apolo,

E em cantigas as Musas desenvolvem

Os segredos que Palas traz recentes

Do cérebro de Jove.

 

Pouco importa que os séculos passados

Um Sócrates absorto aos Céus presentem;

Que Platão, meditando a Divindade,

Respire o ar de Atenas;

 

Que do frio Danúbio as praias honre

Do sábio Alceste(*) o berço venturoso,

Que ou já na sociedade, ou no retiro

Profunde a natureza;

[()O Doutor Inácio Tamagnini (Nota da Autora).] *

 

Que Almeno(*) lá nos ermos solitário

Derrame nos seus números suaves

O espírito de Horácio, imagens lindas

Que as Musas lhe debuxam.

[()Frei José do Coração de Jesus (Nota da Autora).] *

 

Tece a pura razão áurea cadeia,

E num tempo, num sítio une gostosa

A Sócrates, Platão, Alceste, Almeno,

E Alcipe, que os estuda.