Júlio Dinis

A TECEDEIRA

Tecia uma teia nova,

Tecia-a no meu tear,

Quando vi o condezinho

Junto à janela parar.

 

Era ele jovem bem feito,

Cabelo louro, alva cor,

Olhos azuis, voz afável,

Mas... doído em coisas de amor.

 

Parou, depois encostou-se,

Sorrindo, ao meu peitoril:

— «Sempre a tecer, tecedeira!

Até em manhãs d'Abril!»

 

Isto disse ele, e eu calada

A tecer sem lhe falar;

Ele em mim postos os olhos,

Que eu bem lhe sentia o olhar.

 

— «Então, então, tecedeira,

Nem bons dias me darás?»

— «Pois... bons dias, senhor conde,

E olhe se me deixa em paz.»

 

— «Vem comigo, tecedeira,

Pára um pouco de tecer;

Há tantas flores no campo

Que apetece ir-las colher.»

 

À Virgem, minha madrinha,

Eu pus-me então a cantar:

— «Nossa Senhora, livrai-nos

De quem nos anda a tentar.»

 

— «Tentas-me tu, feiticeira,

Tentas-me com o teu rigor;

Tens o coração fechado,

A chave... onde a irias pôr?»

 

— «O meu coração não se abre,

Como vós outros julgais,

Com palavras traiçoeiras,

Com promessas desleais.»

 

— «Qual é pois, ó tecedeira,

A chave que o há de abrir?»

— «Tem segredo a fechadura,

Que não há de descobrir.»

 

— «Segredo tem que me ocultas

Com cruel ingratidão,

E que irás revelar breve

A qualquer pobre aldeão.»

 

— «A pobreza não avilta;

Porém se não pensa assim,

Repare bem que eu sou pobre,

Não se chegue para mim.»

 

— «Tecedeira, tecedeira,

Como hei de viver sem ti?»

— «Não tem que saber, menino

É viver como até aqui.»

 

— «Quanto mais és rigorosa,

Tanto mais eu te hei de amar.»

E, dizendo estas palavras,

Ia a entrar no meu tear.

 

Eu levantei-me tão séria,

Que ele, sem querer, parou;

— «Mais devagar, condezinho,

Tal confiança lhe não dou.

 

«Estava sossegada e queda

Tecendo no meu tear...

Fuja daqui, condezinho...

E não me venha tentar.

 

«Para que lhe dê ouvidos

Ponho eu uma condição.»

— «Qual é?» — «Ou hei de ser condessa,

Ou o senhor tecelão.»

 

— «Tecelão? Eu te prometo

Que tecelão me farei.

Porque vou tecer tal teia,

Que nela te enredarei.»

 

— «Teça, teça, condezinho,

Que outro tanto farei eu;

A ver quem faz melhor teia,

Se é o seu tear, se o meu.»

 

Partiu; mas, ai, com tal arte

Soube ele a teia tecer,

Que nas malhas do tecido

Eu me enredei sem querer.

 

Mas não me dei por vencida,

Que no meu tear teci

Os vestidos de condessa

Com que depois me vesti.