Francisco de Sá de Miranda

Carta

Gracejar ouço de cá

De quem vai inteiro e são,

Nem se contrafaz mais lá;

Como este vem aldeão,

Que cortesão tornará?

 

As santidades da praça,

Aqueles rostos tristonhos,

Cos quais este, e aquele caça;

Para Deus, senhor, é graça;

Para nós tudo são sonhos.

 

E os discursos que fazemos,

Pode ser, não pode ser,

Mais diante o entenderemos:

Agora mortos por ver;

Então todos nós veremos.

 

Senhor, hei-vos de falar

(Vossa mansidão me esforça)

Claro o que posso alcançar;

Andam para vos tomar

Por manhas, que não por força.

 

Por minas trazem suas azes

Os rostos de tintureiros,

Falsas guerras, falsas pazes;

De fora mansos cordeiros;

De dentro lobos roazes.

 

Tudo seu remédio tem

E que assim bem o sabeis,

E ao remédio também;

Querei-los conhecer bem,

No fruto os conhecereis.

 

Obras, que palavras não:

Porém, senhor, somos muitos,

E entre tanta multidão

Tresmalham-se-vos os frutos,

Que não sabeis cujos são.

 

Um que por outro se vende,

Lança a pedra, e a mão esconde;

O dano longe se estende;

Aquele a quem dói e entende,

Com só suspiros responde.