Júlio Dinis

TRIGUEIRA

Trigueira! que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciúmes tens da alvura

Desses semelhantes de neve!

Ai, pobre cabeça, leve!

Que te não castigue Deus.

 

Trigueira! se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

Dessa ardilosa maneira

Porque tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.

 

Trigueira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto.

Daí provém todo o encanto

Em que me traz este amor.

 

E suspiras e murmuras;

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?

 

Trigueira! onde mais realça

O brilhar de uns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr de uma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?

 

Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa.

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.

 

Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

 

Abril de 1864.

 

De: As Pupilas do Sr. Reitor