Júlio Dinis

NO BAILE

Ia o baile a findar. Nas vastas salas,

Que o fulgor de mil cirios ilumina,

Soam da orquestra as notas harmoniosas

A convidar a derradeira valsa.

O seio a arfar, as trancas em desordem,

Os ombros nus, o gesto requebrado.

Como estrelas cadentes, as valsistas

Em veloz turbilhão girando, passam.

Nos dourados espelhos se reflete

Todo o encanto da cena.

Novos mundos

Luminosos, florentes, dali surgem

Longe e ao longe se estendem sem que possa

Encontrar-lhes limite a vista errante.

Tudo se move e agita, aqui e em torno.

Confunde-se a ilusão com a realidade;

Cingem-se ao peito virgens palpitantes,

E vêem-se fugir, fugir, sorrindo,

No fantástico mundo dos espelhos;

Outras se lhe sucedem.

Que segredos!

Que segredos d'amor nesses olhares

Lânguidos, desvairados, expressivos!

Que segredos traídos na imprudência

De um aperto de mão involuntário!

Que mudas confidencias eloquentes!

Que indiscretos suspiros! um momento

Traiu as longas, tímidas reservas

De castas namoradas. No delírio

Em que a valsa lasciva as arrebata,

Já nem sabem fingir, dissimulando,

Em frias aparências, os ardentes

Estos do coração, rendidos a amores.

Soltam-se-lhes as flores do cabelo.

E esfolhadas no pó, são esquecidas.

Ai, descuidosas virgens, que não vedes

No destino da flor vosso destino!

Esquecidas as tristes! Já sem viço,

Sem os encantos já do aroma e cores,

Quem se lembrará delas? Quem, sensível,

As erguerá do chão, murchas, calcadas,

Se vós as desprezais assim? Mas ide,

Ide, voai, ligeiras borboletas!

Ide, voai nas asas da harmonia!

Embriagadas d'amor, correi... mais tarde,

Como essas flores que por vós... Mas longe,

Longe uma ideia negra, no momento

Em que o prazer vos foge. À valsa! à valsa!

Mais rápida! mais rápida! Nas salas

Já desmerece o refulgir das luzes.

Mais rápida! Convulsos, enlevados

Giram os pares em redor.

Que febre! Que febre de volúpia os alucina!

Mais rápida! A vertigem se apodera

Dos sentidos. Estreitam-se os braços,

E os lábios inflamados, quase, quase

Em êxtase d'amor se tocam.

Vede-a! A alvoroçada turba de formosas,

Louras, morenas, cândidas, lascivas,

Quais rosas soltas de variadas cores.

Em vórtice fatal arrebatadas

De profunda voragem, assim passam!

Que mágico poder as enlouquece?

Em que órbita de luz volvem sem tino?

Que vista as seguirá, que fascinada

Não vacile também? ainda mais rápida!

Mais e mais 'té que exaustas de cansaço

Caiam, talvez sem vida, as imprudentes.