Marquesa de Alorna

A uma Freira em Chelas

Quando em silêncio adormecem

Todos os seres mortais,

Ligeiros à tua cela

Voam saudosos meus ais.

 

Dize, leste os versos de ontem,

Onde insculpiu a ternura,

Comovida ao contemplar-te,

Indícios de mágoa pura?

 

Agora que tudo dorme,

Agora que só se escuta

De noite o surdo rumor,

Reflexo de alguma gruta;

 

Quando toda a natureza,

Envolvida em sombra densa,

Dá liberdade aos suspiros

Que nascem de mágoa intensa;

 

Corre o vago pensamento,

E no pequeno recinto

De uma cela, aí te encontro,

Para explicar-te o que sinto.

 

Eu te vejo, ó Céus! que vista!

Aprisionando entre flores

Os corações delicados

De mil cativos amores.

 

Das perfeitas mãos te nasce

Ora murta, ora alecrim,

Ora imitando teu rosto

Cândido e lindo jasmim.

 

Que ideias ternas te inspiram,

Quando o gosto da leitura

Diminui brandamente

O cargo da desventura!...

 

Nos discretos caracteres,

Vão teus olhos magoados

Ora lendo o seu conforto,

Ora o decreto dos Fados.

 

Já te lanças brandamente

No seio da paciência;

já te recreia admirar

O aspeto da Providência.

 

Eu te sigo, suspirando,

E teço então sobre a lira

Estas cantigas saudosas,

Que o contemplar-te me inspira.

 

Se meus versos te consolam,

Sempre a branda simpatia

Conduzirá no silêncio

A Musa que teme o dia.