Júlio Dinis
Vistes a jovem mãe junto do berço
Do filho adormecido?
Que lhe importava o resto do universo?
Tudo o que a mão de Deus nele há disperso
Via ali resumido.
A guerra vai acesa, o sangue corre
Pelas nações da Terra;
Mas todo esse rumor no berço morre:
A aumentar o silêncio até concorre
Que o gineceu encerra.
Um dia, ao pôr do Sol, ela embalava
O berço do inocente.
E, com os olhos nele, se entregava
A sonhos de ventura e olvidava
No porvir o presente.
Por um momento a olhou ele e sorria:
Mas que sorriso aquele!
A mãe, que todos os gestos lhe entendia,
Estranhou-lhe o sorrir, que de alegria
Ai, não, não era ele.
O seio a palpitar-lhe, e mansamente
Nos lábios o beijava.
Mas no amoroso ósculo, somente
Recebeu o espírito inocente,
Que a Terra abandonava,
Tendes já visto o mar tranquilo e unido
Nas praias deslizando,
E depois levantar-se embravecido
Qual o leão, do caçador ferido,
As crinas eriçando?
Tendes já visto o vento pela serra
Gemendo brandamente,
Para depois, em tumultuosa guerra,
Descer aos vales, devastar a terra
Assolador, fremente?
Assim a pobre mãe se ergueu, os ares
Enchendo com os seus gritos!
Como a fera a rugir entre os palmares,
Corre a pobre sem tino, os seus olhares
Volvendo ao Céu aflitos.
Ao vê-la, di-la-eis impelida
Por sobre-humana força.
Nem mais veloz, no bosque foragida.
Através das devesas perseguida,
Corre a tímida corça.
De repente parou, como escutando
Uma vaga harmonia.
E um estranho fulgor de vez em quando
Vinha animar-lhe as faces, revelando
Insólita alegria.
Volta ao berço do filho inanimado.
Pára, olha-o, medita.
Depois cingindo-o ao seio angustiado,
Corre à praia do mar, que o vento irado
Então revolve e agita.
«Filho, filho, não partas só da vida,
Espera, eu vou contigo.»
Disse, e nas penhas húmidas erguida,
Com o inocente, na vaga enfurecida
Busca o final jazigo.
Viste a jovem mãe na campa fria
Unido o filho ao peito?
Que lhe importava o mundo, onde o não via?
Como outrora, embalando-o, adormecia,
Mas no funéreo leito.
1862