Júlio Dinis

DESESPERO

O dia fenece. Com a luz purpurina

Que tinge o ocidente, que aromas não vem!

O Sol vacilante no oceano declina,

Eleva-se a Lua nos montes de além.

 

Por entre a ramagem de densa espessura

Semeada de aljôfares por lânguida luz

Mil aves modulam com meiga ternura

Os seus hinos que a aragem aos montes conduz.

 

Que mágicas cenas! que aromas na brisa!

Que sons! que harmonias se elevam daqui !

Ditosa a existência que mansa desliza

E a quem esta cena de graças sorri.

 

Mas; ai, de que valem belezas de selva,

Das aves os hinos, perfumes de flor?

Que importa o arroio gemendo na relva

E a Lua surgindo com grato palor?

 

Que importa o silêncio que vai na campina

A quem dentro d'alma rebrame a paixão?

Que importa a folhagem que adorna a colina

Se dentro palpita medonho vulcão?

 

Oh! antes mil vezes ouvir agitadas

As vagas lutando com as nuvens do céu.

Olhar as florestas brilhando incendiadas

E o raio rasgando das noites o véu.

 

Em vez do murmúrio das brisas suaves,

O vento com raiva no bosque a bramir

Em vez do mavioso descante das aves,

Das feras o torvo, medonho rugir!

 

Então, nos horrores de tanta tormenta

Talvez meus martírios eu visse extinguir,

Então, como o infante que a mãe acalenta,

Ao som das rajadas pudera dormir.

 

Mas não; ainda mesmo que todo o universo

Desabe em ruínas em torno de mim

No caos informe, que fora seu berço,

Achando o seu leito de morte por fim.

 

A rude tormenta que o seio me agita

Inda há de mais alto suas fúrias erguer,

Que vagas ardentes de lava maldita

Eu sinto violentas no peito ferver.

 

E os risos do campo, de escárnio parecem,

Os sons das florestas, insultos à dor.

Mal hajam as galas que o prado guarnecem,

Mal haja esta noite de paz e de amor!

 

Oh ! vem, negro gênio da guerra e tormenta

O teu facho terrível sacode no ar

E todo o universo de guerra alimenta,

Dos homens na terra, das ondas no mar!

 

E em vez desta noite risonha e tranquila

Suscita os horrores do dia final;

Cidades e povos, e a vida aniquila

E eleve-se o trono do gênio do mal!

 

13 de Agosto de 1860