Júlio Dinis
Não me entendes? não suspeitas
Que esta frieza é fingida?
Não vês, cega, que envolvida
Está nela ardente paixão?
Quando teus olhares evito,
Quando julgas que medito,
Não compreendes que me agito
Em profunda inquietação?
E julgas isto frieza?
Julgas que o meu peito é gelo?
Se o que sinto não revelo,
Julgas que isso é não sentir?
Ai, louca, que assim te iludes;
Um momento que me estudes,
Verás que tormentas rudes
Me estão no peito a bramir.
Se a mão te cinjo à partida,
Não a sentes vacilante?
Diz, não vês como inconstante
Busco e evito o teu olhar?
Chamas a isto indiferença?
Não é, não, repara, pensa;
E o amor que se condensa
Para mais me devorar.
E tu não sentes... nem podes;
Pra que os olhos vejam tanto,
E, sob indiferente manto,
Descubram violento amor,
Não, não basta olhar somente;
O que o peito não pressente,
Só quando fora rebente
Pode aos olhos ter valor...
E o teu coração... outrora
Esperei que me entendesse;
Julguei que nunca esquecesse
O que na infância nasceu,
E com os olhos no futuro
Caminhei firme e seguro,
E nunca este culto puro
No peito me adormeceu
Mas tu... Essa flor singela
Da afeição que nos unia
Se definhava e morria
Desde que outra flor surgiu;
Cenas da infância, folguedos,
Os seus sorrisos, seus segredos,
Passam, como nos olmedos,
A folha que ao chão caiu.
E por isso as esqueceste;
Eu não; que então já no seio
Ocultava com receio
Mais do que infantil amor.
Quando, só, em ti pensava,
E só contigo me achava,
Não te lembras? já corava,
Nem para mais tinha valor.
Cresci, e esta ideia sempre
Afagava na lembrança;
Sempre, sempre esta esperança,
Sempre, sempre esta ilusão!
Ilusão, sim, era apenas;
Todas as passadas cenas
E recordações amenas
Riscou-tas nova paixão.
Foi uma noite. Esta ideia
Inda a conservo bem viva,
Cada dia mais se aviva
Pra mais me fazer sentir;
Desde então já não me iludo,
Foi uma noite; vi tudo,
E fiquei gelado, mudo,
Sem esperanças, sem porvir!
Um outro estranho, que importa?
Te falava com meiguice
E às palavras que te disse
Tu sorriste e ele sorriu,
E, desumana, não vias
Que o amigo de outros dias,
De cada vez que sorrias,
Cruéis angústias sentiu!
Ai, noite de insónia aquela!
Tu caiçaras o passado,
Nem talvez nunca pensado
Havias nele como eu;
Quis esquecer-te, vingar-me,
A outro amor entregar-me,
Mas só consegui cansar-me;
Este amor permaneceu.
Até quando? Só Deus sabe.
Comprimido ele floresce,
Mas vive, mas não fenece,
Que já da infância ele vem;
Tu não vês, que uma outra chama
Há muito teu seio inflama,
E quando deveras se ama,
Vê-se o amante e mais ninguém?
Bom é pois que não suspeites
Que esta frieza é mentida,
Que não vejas que envolvida
Oculta ardente paixão.
Quando teus olhares evito,
Quando julgas que medito,
Nunca saibas que me agito
Em profunda inquietação.
Abril de 1860.
Nota do Autor. — Esta poesia é um enigma, que eu não decifrarei. Isto quase equivale a dizei que ficará sendo um enigma para todos e para sempre talvez.
Foi escrita o ano passado e esquecida. Encontrei-a, fiz-lhe algumas
modificações inclui-a nesta coleção. É em grande parte imaginária