Marquesa de Alorna
Deixa-te disso, amiga, não me pregues.
Amor é para mim uma quimera;
Em meu peito deserto não prospera
Mais que a lei da razão, que tu não segues.
Bem percebo essas máximas sublimes
Que ostenta a gente fraca, e que despreza
Quem tem força, quem doma a natureza,
E quem não quere passar de erros a crimes.
Faze embora elogios à inconstância,
Ama vinte, se queres, não me importa;
Em para criticar estou já morta...
Não conheces a minha tolerância?
Sou de composição muito esquisita:
Não creio nos amores desta terra,
E declaro aos amantes maior guerra,
Quando de amor minha alma necessita.
Quem vês tu que mereça ser amado?
Qual do culto de Amor digno hierofante
Não terá, com as fraquezas de inconstante,
Os augustos mistérios profanado?
Amor em mim não é qual o tu sentes,
Um clamor, um tumulto dos sentidos;
Eu tenho esses escravos submetidos
As leis mais elevadas, mais decentes.
Sinto amor como a terra toda sente,
As forças que a mantêm, forças diversas;
Amor me faz fugir de almas perversas,
Por amor busco (em vão) uma inocente.
De opiniões cobardes governados,
Os homens hão de rir destas doutrinas,
Hão de rir os peraltas e as meninas.
Queres que adore um desses malcriados?