Júlio Dinis

NÃO POSSO

Pedes-me um canto, anjo?

Ai não, não sei cantar-te,

Hinos para elevar-te

Não sabe a minha voz.

Os grandes sentimentos

As majestosas cenas

Sentimo-las apenas;

Que mais podemos nós?

 

Qual é a linguagem,

Que as sensações exprime

Dessa hora tão sublime

Das confissões de amor?

Se um ente amado expira...

Junto ao lutuoso leito,

Do que nos vai no peito

Quem pode ser cantor?

 

Nas praias do oceano

Ao som dos seus bramidos

Enlevam-se os sentidos,

Escuta o coração.

 

E as horas passam rápidas,

Delícias sonha a mente...

Mas, o que então se sente

Cantar se tenta em vão.

 

Sob as arcadas tristes

De templo sacrossanto

Sobe, com fervor santo,

O pensamento a Deus.

 

Da fé íntima e pura

A alma aí se inspira...

Porém pode a lira

Cantar nos hinos seus!

 

Ai não me peças cantos!

O sentimento é mudo,

Diga o silêncio tudo

Quanto eu não sei cantar

Mas, se amas... se no peito

Íntima voz te fala,

Tudo o que a lira cala

Lerás num meu olhar.

 

Novembro de 1859.

 

Nota do Autor — Se esta poesia tem um leve fumo de verdade, ele é tão

fraco e desvanecido, que não me atrevo a alistá-la entre as verdadeiras, em

quanto ao facto; pois em quanto aos sentimentos, sustento que o é; e julgo

não ser o único nesta crença. Estes versos talvez me justifiquem de arguições

futuras. É uma poesia de prevenção. Olhem-na como tal.