Marquesa de Alorna

Às Águas

*Turbate son l’onde

Del saggio Hyppocrene.

E Apolle diviene

Ministro d’Amor. *

Metast. Asil. d’Amore

 

Claras águas, de que ouço o murmúrio,

Calado bosque, ermo, que sombrio

Abrigas em teu centro o escuro medo;

O mais terno segredo

Vem Alcipe fiar-vos no seu canto.

Doei-vos, selvas tristes,

Das mágoas que me ouvistes,

Desde que a voz queixosa aos Céus levanto.

 

Não são as minhas mágoas, não, vulgares:

Inventou para mim novos pesares,

No seu furor, a sorte mais adversa.

Águas! Quanto diversa

Junto das vossas margens estive um dia – Um dia só contente,

Que o fado cruelmente

Alonga a dor e encurta uma alegria!

 

Ali na fresca areia destas praias,

Repousando-me à sombra de altas faias,

Via passar a plácida corrente;

Versos alegremente

Ditava Amor ao brando som da lira;

Os Génios namorados

Me contavam cuidados,

Que escutam de Citera a quem suspira.

 

Nas verduras meus olhos alongando,

Passava o tempo leda; um gesto brando

Enleava meus ternos pensamentos;

Jamais os sonolentos

Filhos do Érebo, males desumanos,

O seu negro vapor Espalharam ao redor

Do asilo em que passei meus tenros anos.

 

Quantas vezes a Musa me guiava

Ao lugar em que terno suspirava

Petrarca saudoso, que em Vaucluso

Suave fez o uso

Da cítara cadente, repetindo

Aquela branda história

Que lhe pôs na memória,

Com as farpas de Amor, um gesto lindo!

 

Aonde os pensamentos me levavam!

Parecia-me que as Musas enlaçavam

Com fios de oiro as ramas do loureiro;

Depois, que o Deus flecheiro,

Verdes mirtos colhendo, os ia unindo

À formosa capela

De que a Musa mais bela

Coroou Petrarca – Laura – repetindo.

 

Sonhos vãos que forjava a fantasia!...

Prazeres que benigno Amor fingia!...

As Dríades me ouviram mil canções,

Que aos ternos corações

Excitaram mil gratos sentimentos.

Hoje, nos troncos duros,

Dos meus fados escuros

Escrevo os tão diversos movimentos!

 

A minha antiga Musa se desvia,

Só me inspira a cruel melancolia;

Outro Apolo não tenho que o meu dano.

Às vezes de ano a ano

Uma triste cantiga solitária

No centro do retiro,

Seguida de um suspiro,

Arranca do meu peito a sorte vária.

 

Ó Naides, que do fundo desta fonte

Ouvis o mal que Amor manda que eu conte,

Se acaso minhas lágrimas saudosas

Distinguirdes, piedosas,

Ah! condoei-vos, sim, do dano meu!

Se o mal que eu choro tanto

Paga outro terno pranto,

Dai-me a sorte feliz do claro Alfeu!

 

Canção, vai, que a levar-te não me atrevo;

Segue longe do meu outro destino;

Enquanto nos pesares que imagino

A minha acerba dor eu, triste, cevo.