Júlio Dinis

TERÇA-FEIRA

III

 

— «Filho, filho, ergue-te, acorda...

Para quê, só Deus o sabe... »

E em lágrimas lhe trasborda

A dor que na alma não cabe.

 

— «Sonhavas talvez brinquedos,

Pois que sorrias dormindo;

Verás brincar nos rochedos

Esse mar que está bramindo.

 

«Vai ainda quente do berço,

Inda quente dos meus beijos,

Para um mundo bem diverso

Do sonhado nos meus desejos.

 

«Vai, tu que sempre dormiste

Ao som das minhas cantigas,

Dormitar à canção triste

Dessas ondas inimigas.

 

«E sorris, anjo querido,

Ao passo que eu choro tanto,

Pois não sabes o sentido

Deste doloroso pranto?

 

«Não sabes que se me parte

O meu coração no peito

Ao vir assim acordar-te

Do teu sossegado leito?

 

«Não sabes que a minha vida,

Pobre filho, vai contigo,

E que nesta despedida

Trocas para sempre este abrigo.

 

«Este abrigo do meu seio,

Por perigos e cansaços?!

Não sei, não sei que receio

Ao tirar-te dos meus braços.

 

«Choras, filho? Ai, não, não chores,

Que me tiras todo o alento;

Já me bastam minhas dores,

Basta-me o meu pensamento.

 

«Deus é bom. Nem sempre os mares

Se alevantam com tormentas.

Não chores, que se chorares,

O meu pesar acrescentas.

 

«Sossega. Esta cruz benzida

Leva contigo, e descansa,

Pois quem é tão bom na vida,

Deve em Deus ter confiança.

 

«Vai, que eu à nossa Senhora, Àquela

Virgem das Dores,

Que é a tua protetora,

Rezarei logo que fores.

 

«Limpa essas lágrimas, vamos,

Que teu pai tas não conheça.

E a oração que te ensinamos,

Ai, vê lá! nunca te esqueça.»