Luís Vaz de Camões

Nascerão Saudades de Meu Bem

Alegres campos, verdes arvoredos,

Claras e frescas águas de cristal,

Que em vós os debuxais ao natural,

Discorrendo da altura dos rochedos ;

 

Silvestres montes, ásperos penedos

Compostos de concerto desigual ;

Sabei que, sem licença de meu mal,

Já não podeis fazer meus olhos ledos.

 

E pois já me não vedes como visites,

Não me alegrem verduras deleitosas,

Nem águas que correndo alegres vêm.

 

Semearei em vós lembranças tristes,

Regar-vos-ei com lágrimas saudosas,

E nascerão saudades de meu bem.