Júlio Dinis
É força descrer. Na vida
Sucumbe toda a ilusão
Como a flor da haste pendida
Murcha ao sopro do tufão.
Fantasias vãs da infância
Deixai-me; sois mentirosas.
Pintáveis-me a vida estância
Coberta de mirto e rosas.
E, ao perto, o mirto e as rosas
Em espinhos se tornaram.
Essas horas venturosas
Bem amargas se mostraram.
Descrer é fatal destino
Que espera o homem na vida.
E não há poder divino
Que lhes sirva de guarida.
Descrer? descrer! muito custa
Quando o peito é de vinte anos,
Quando a alma ainda se assusta
Ao clarão dos desenganos.
Pobre alma! pobre seio!
Ai que martírio sofreste.
Inda ontem de ilusões cheio
E hoje já quantas perdeste!
E agora que mais me resta?
Qual, ó alma a tua sorte!
Já que a vida é tão funesta
Aspira somente à morte.
6 de Agosto de 1860.