Luís Vaz de Camões

Tomou-me vossa vista soberana

Tomou-me vossa vista soberana

Aonde tinha as armas mais à mão,

Por mostrar que quem busca defensão

Contra esses belos olhos, que se engana.

 

Por ficar da vitória mais ufana,

Deixou-me armar primeiro da razão;

Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão,

Que contra o Céu não vale defensa humana.

 

Contudo, se vos tinha prometido

O vosso alto destino esta vitória,

Ser-vos tudo bem pouco está entendido.

 

Pois, inda que eu me achasse apercebido,

Não levais de vencer-me grande glória;

Eu a levo maior de ser vencido.