Júlio Dinis

NUVENS

Vês as nuvens no azul do firmamento

De brancuras ofuscantes,

Como impelidas por tufão violento

Se formam em legiões extravagantes?

 

Olha; acolá, reunidas uma a uma,

Um trono simbolizam;

Ali, rasgam-se em flocos, como a espuma

Das vagas crespas que em areais deslizam.

 

Mais longe, vês? as massas vaporosas

Informe monstro imitam,

E além, tingidas pela cor das rosas,

Paços que ocultas mágicas habitam.

 

Agora, vastos pórticos, ogivas,

E um longo peristilo,

Colunas, capiteis, arcadas vivas,

Arquiteturas de ignorado estilo.

 

Logo por esses plainos dispersadas

Pelo sopro do vento,

Como níveos cordeiros às manadas

Sucedem-se velozes cento a cento:

 

Ora parecem gigantescas serras

Com seus eternos gelos;

Ora planícies de nevadas terras,

E das águas boreais os caramelos:

 

Ali nos representam funda gruta

E rochas diamantinas;

Acolá, mil exércitos em luta;

Mais além, mil cidades em ruinas.

 

E sabes tu no que essas formas vagas

Perto de nós se tornam!

Dize, quando no prado a sós divagas,

Tens visto as gotas que o vergel adornam?

 

Pois são esses os tronos deslumbrantes,

A ogiva preciosa,

Os fustes das colunas de diamantes,

E encantados palácios cor-de-rosa.

 

Esse vasto espetáculo dos ares,

Essas mágicas cenas,

A que presos estão nossos olhares,

Vê-los ao perto? são orvalho apenas.

 

Bem assim os projetos, áureos sonhos

Que na vida sonhamos;

Belos fantasmas, fúlgidos, risonhos,

Que nos céus do futuro divisamos.

 

Pois que junto de nós, essas imagens,

Essa visão querida,

Desvanecem-se, pérfidas miragens,

Fundem-se como a neve derretida;

 

Esperança no porvir, nuvens formosas,

Em que assim te deleitas,

Com esse orvalho que humedece as rosas

Hás de vê-las em lágrimas desfeitas.

 

4 de Setembro de 1862.