Júlio Dinis
Surge a manhã! Tudo é festa
Tudo no campo é prazer,
Trinam aves na floresta
Hinos do Sol ao nascer.
Nestas horas misteriosas
Em que dos jasmins e rosas
Sobem perfumes aos céus,
Nestas horas de magia
Em que tudo tem poesia,
Os meus pensamentos... são teus.
Leva o Sol seu curso em meio,
Tudo inunda em clara luz
E só das selvas no seio
Branda sombra se produz,
Mal se ouvem os zumbidos,
Dos insetos e os gemidos
Da fonte caindo além;
Nesta hora de ardente calma
De amor só me falta a alma
E este amor... é teu também.
Já vai desmaiando o dia,
Aumenta o grato frescor
E na alameda sombria
Gorjeia o alado cantor;
Soltam-se os diques às presas,
Da rega é a hora, e às rezas
Convida o bronze cristão;
Cede o trabalho ao descanso;
Nestas horas de remanso
Os meus pensamentos teus são.
Noite é já. A Lua alta
Dos ares causa a amplidão,
Longe, ao longe, o mar exalta
Aos céus a vaga canção;
E do arvoredo a folhagem
Quer, na sua linguagem,
Os seus bramidos imitar;
O sono a terra domina
E tua imagem divina
Me enleia em brando sonhar!
Penso em ti a toda a hora,
De manhã, pelo arrebol,
Depois, quando à luz da aurora
Sucede o fulgor do Sol;
Penso em ti na hora amena
Em que a tarde vai serena
Envolver-se em tênue véu;
Penso em ti de noite escura,
E é toda a minha ventura;
A mais não aspiro eu.
1858.
Nota do Autor — Aspirar, aspiro, mas... Esta poesia (perdoem-me o nome)
não é um simples Jogo de fantasia. O que ela é. escuso de o dizer. Os que a
entenderam dispensam explicações. Os outros não sei se feliz se infelizmente
para eles, nem com um volume inteiro de notas a entenderiam melhor.
Em quanto a este tique que nela figura, se me perguntarem quem é. colocam
me em sérias dificuldades. Não saberei responder talvez satisfatoriamente.