Elmano Sadino

A Negra Fúria Ciúme

Morre a luz, abafa os ares

Horrendo, espesso negrume,

Apenas surge do Averno

A negra fúria Ciúme.

 

Sobre um sólio cor da noite

Jaz dos Infernos o Nurne,

E a seus pés tragando brasas

A negra fúria Ciúme.

 

Crespas víboras penteia,

Dos olhos dardeja lume,

Respira veneno e peste

A negra fúria Ciúme.

 

Arrancando à Morte a fouce

De buído, ervado gume,

Vem retalhar corações

A negra fúria Ciúme.

 

Ao cruel sócio de Amor

Escapar ninguém presume,

Porque a tudo as garras lança

A negra fúria Ciúme.

 

Todos os males do Inferno

Em si guarda, em si resume

O mais horrível dos monstros,

A negra fúria Ciúme.

 

Amor inda é mais suave,

Que das rosas o perfume,

Mas envenena-lhe as graças

A negra fúria Ciúme.

 

Nas asas de Amor voamos

Do prazer ao áureo cume,

Porém de lá nos arroja

A negra fúria Ciúme.

 

Do férreo cálix da Morte

Prova o funesto azedume

Aquele a quem ferve n'alma

A negra fúria Ciúme.

 

Do escuro seio dos fados

Saltam males em cardume:

O pior é o que eu sofro,

A negra fúria Ciúme.

 

Dos imutáveis destinos

Se lê no idoso volume

Quantos estragos tem feito

A negra fúria Ciúme.

 

Amor inda brilha menos

Do que sutil vagalume,

Por entre as sombras que espalha

A negra fúria Ciúme.