Júlio Dinis
Tenho oitenta anos contados
Dos meus cabelos nevados
Bem poucos me restam já;
Tem-me ido até agora a vida
De amor para amor impelida,
Até quando... Deus dirá.
Tinha dez anos apenas,
E já nas tardes serenas,
Ao declinar do calor,
Me agitava o pensamento
Como agita as flores o vento
Uma ideia só — amor.
Na aldeia em que eu residia
Decara de mim vivia
Quem tal amor me inspirou.
Uma criança era ainda,
Porém nunca flor tão linda
Os olmedos enfeitou.
Uma manhã, como a visse
Junto de mim, eu lhe disse
Coisas que me lembram mal;
Ela, ao passo que me ouvia,
Baixava os olhos, sorria...
E deu-me um beijo, afinal.
E desde então por diante
Fiquei sendo seu amante
E fui amado também.
À sombra dos arvoredos,
Dizíamos mil segredos,
Que nunca entendemos bem.
Tempos assim decorreram,
Felizes tempos que eram!
Até que para cidade eu vim.
Chorámos na despedida
Mas supondo-se esquecida,
Ela esqueceu-se de mim.
Outra vida, outros amores
Da cidade entre os fulgores,
Tinha quinze anos, amei.
Era uma virgem trigueira
Olhos negros, prazenteira,
Doido por ela fiquei.
Os livros abandonava,
Horas e horas passava
Com ela, sem o sentir;
O meu tio franzia a testa,
Porém, à hora da sesta,
Costumava ele dormir.
Ia então para junto dela,
Chamava-lhe meiga, bela,
E o que é costume chamar.
Ela ouvia-me, corava,
Na costura continuava
E deixava-me falar.
De uma vez, pedi-lhe um beijo,
Ela mostrou algum pejo,
Mas enfim... sempre mo deu;
Atrás deste, outros vieram
E o bem que me eles souberam
Nunca depois me esqueceu.
Mas numa noite de festa,
Para mim noite funesta,
Todo este amor se extinguiu;
Toda esta nossa ternura,
Que eu julguei de tanta dura,
A um capricho sucumbiu.
Todos no baile dançavam,
E às valsas se entregavam
Com furor; faltava eu só.
Como dançar não sabia,
Para um canto me metia,
Triste que fazia dó;
Ora, é coisa bem sabida,
Que a dança cá nesta vida,
Não se dispensa a um rapaz;
Adeus amores, se não dança...
Neste mundo mais alcança
Quem mais cabriolas faz.
Por não dançar, fui deposto
E, como após um Sol-posto,
Se levanta um novo Sol.
O que para par a tirara
Logo ali me arremessara
Dos esquecidos para o rol.
Fiquei livre; mas em breve
A minha cabeça leve
Me envolveu noutra prisão.
Estava escrito no meu destino
Que havia de errar sem tino
De afeição em afeição.
Tinha vinte anos. Um dia
Pra ver se me distraía
Num teatro me meti;
Mal no palco os olhos prego
Que perdi o meu sossego
Desde logo conheci.
Estremeci de surpresa
Ao contemplar a beleza
Com que brilhava uma atriz!
Perdido fiquei a vê-la!
Nunca vi mulher tão bela!
Nem uns olhos tão gentis!
Cai o pano, as palmas soam
E por toda a parte ecoam
De poetas mil canções.
Tudo isso me revela
Que a muitos os olhos dela
Incendiaram os corações.
Abandono a sala, corro,
Quero vê-la, senão morro,
Quero ver os olhos seus,
Quero dizer-lhe que a adoro
E que em chamas me devoro,
Contar-lhe os tormentos meus.
Entro no palco, perdido,
Doido de todo... varrido,
Vejo-a, lanço-me aos seus pés.
Disse amá-la como um louco,
E, como achasse isto pouco,
Repeti-lho muita vez.
Ela olhou-me com um sorriso,
Como nem no paraíso
Um sorriso assim se vê;
— «Se tem um amor como o pinta,
Que o futuro o não desminta.»
Me disse ela. — E tenha fé.
Voltei para casa exaltado
Quase meio embriagado,
Coisas que o amor produz.
Mas dormir debalde tento,
Impede-me o pensamento,
Toda a noite olho não pus.
Já quarenta anos eu tinha
Quando, por desgraça minha,
Tornei no engodo a cair;
Foi uma rica matrona
Que me meteu nesta fona
Donde me custou a sair.
Viúva de três maridos,
Tinha intentos decididos
De ainda mais outro matar.
Se a pensar nisto me ponho,
Um destino tão medonho
Me faz hoje arrepiar!
Mas enfim o amor é cego
E amava-a, não o nego,
A razão não a sei eu.
Por isso talvez influísse
Pra cair nesta doidice
O que ela tinha de seu.
Fiz-lhe um dia três sonetos,
Falei-lhe nos meus afetos,
Ela ao lê-los me sorriu.
E, respondendo-me em presa,
Prometeu ser minha esposa
E um beijo me permitiu.
Com ela as tardes passava,
Em sua casa merendava
Chá com leite e pão-de-ló.
Jogava-se à noite o quino
E aturava-lhe o menino
Com paciência de Job.
Nada mais apetecendo,
Assim íamos vivendo
Um com outro em santa paz;
Já se marcava o momento
Para o nosso casamento...
Quando tudo se desfez.
Foi o caso que num dia
Chegou, vindo da Baía,
E lhe lançou o anzol,
Um ricaço brasileiro,
Que cheirando-lhe a dinheiro,
Casou ele e pôs-me ao sol.
Causou-me um vivo desgosto
Ver-me assim, sem mais, deposto
Por este sensaborão...
Mas então? Tinha dinheiro,
Em breve o vi Conselheiro
E pouco depois Barão.
Abandonar os amores
Que se para os mais só tem flores
Eu por mim poucas lhe vi.
Jurei, mas quis meu fadário,
Que a cruz levasse ao Calvário,
Que remédio obedeci.
Já no inverno das idades
Eu entrava, e as verdades,
Que então a vida nos diz,
Pra mim não se revelavam,
Os cabelos me nevavam
Quando eu outra asneira fiz.
E desta vez o objeto
Do meu sensível afeto
E das minhas afeições
Era uma velha provecta
E que já tinha uma neta
Capaz de inspirar paixões.
Chamei-lhe rola, gazela,
Comparei os olhos dela
Com as estrelas dos céus.
Ela, como bem-criada,
Não só não ficou calada
Mas disse o mesmo dos meus.
Uma noite, à luz da Lua
Eu... beijei-lhe a face sua
A sua enrugada tez.
E ela a modo que gostava,
Mostrou que não estranhava,
Pois nem corada se fez.
Tinha, sim, ela um defeito?
Mas no mundo, amor perfeito
Só em flor, é que se vê.
É que, por mais que eu teimava,
Nunca ela se deixava
De me tratar por você!
Era destas formosuras
Que é melhor ver às escuras
Que na presença de luz.
Quantas mais trevas a cobrem
Mais dotes se lhe descobrem
E mais amor nos seduz.
Já o Verão começava
E com ele começava
O tempo dos arraiais;
Quis que a uma acompanhasse
E como tal recusasse
Deixou-me para nunca mais.
Se há caprichos nesta idade,
Como é que havê-los não há de
Na estação juvenil?
A mulher é caprichosa
Como é fragrante a rosa
E florido o mês de Abril.
Livre, fiquei com a rosa
Livre, como a mariposa
Como a rã pelos pauis;
Fiquei livre como os ventos
Que espalham nuvens aos centos
Pelos espaços azuis.
Já do que tendes ouvido.
Podeis ver como Cupido
Se fez comigo taful.
E, com um gênio assim feito,
Para viver tinha jeito
Num serralho de Istambul.
E para que tudo vos conte
Dir-vos-ei que aqui em frente
Descobri esta manhã
Uma velhinha sem dentes
Muito rica e sem parentes!
Vou requestá-la amanhã.
Porém eu cá já estou certo
Que, apesar dos cem bem perto,
Caprichos ela há de ter.
Mas, embora, paciência,
Da mulher é essa a essência...
O que se lhe há de fazer?
E mal para eles iria
Se lhes desse na mama
Os seus caprichos desterrar.
Crede, meus alvos cabelos
Um dos seus dotes mais belos
É mesmo esse caprichar.
Julho de 18S9.
Nota do Autor — Desta poesia eu sou apenas uma espécie de editor, mas
não responsável. É um velho que fala, e eu não afirmo, pela minha parte, que
penso exatamente como ele neste assunto. O sexo feminino me perdoe
portanto estas sextilhas. Estou pronto a contradizer a ilação que delas se
pretendeu tirar. Debaixo do ponto de vista em que o nosso octogenário
encara as mulheres, eu devo confessar que não tenho motivos para lhes querer
mal nenhum.
Ele julgou-as severamente, mas é certo que também não valia mais do que
elas.
As feridas do coração cicatrizavam-lhe com uma rapidez espantosa e. em
quanto a mim, estes corações são no amor uma calamidade e não merecem
sorte melhor que a que ele teve. Já veem que sou imparcial.