Gil Vicente
Auto da Feira
Diabo
Eu bem me posso gavar
e cada vez que quiser
que na feira onde eu entrar
sempre tenho que vender
e acho quem me comprar.
E mais vendo muito bem
porque sei bem o que entendo
e de tudo quanto vendo
nam pago sisa a ninguém
por tratos que ande fazendo.
Quero-me fazer à vela
nesta santa feira nova
verei os que vem a ela
e mais verei quem me estrova
de ser eu o maior dela.
Tempo
És tu também mercador
que a tal feira te ofereces?
Diabo
Eu nam sei se me conheces.
Tempo
Falando com salvanor
tu diabo me pareces.
Diabo
Falando com salvos rabos
inda que me tens por vil
acharás homens cem mil
honrados que são diabos
que eu nam tenho nem ceitil.
E bem honrados te digo
e homens de muita renda
que tem dívedo comigo
pois nam me tolhas a venda
que nam hei nada contigo.
Tempo
ao Serafim:
Senhor em toda maneira
acodi a este ladrão
que há de danar a feira.
Diabo
Ladrão? Pois haja eu perdão
se vos meter em canseira.
Olhai cá Anjo de bem
eu como cousa perdida
nunca me tolhe ninguém
que nam ganhe minha vida
como quem vida nam tem.
Vendo dessa marmelada
e às vezes grãos torrados
isto nam releva nada
e em todolos mercados
entra a minha quintalada.
Serafim
Muito bem sabemos nós
que vendes tu cousas vis.
Diabo
I há de homens roins
mais mil vezes que nam bôs
como vós mui bem sentis.
E estes hão de comprar
disto que trago a vender
que são artes de enganar
e cousas pera esquecer
o que deviam lembrar.
Que o sages mercador
há de levar ao mercado
o que lhe compram milhor
porque a roim comprador
levar-lhe roim borcado.
E mais as boas pessoas
são todas pobres a eito
e eu por este respeito
nunca trato em cousas boas
porque nam trazem proveito.
Toda a glória de viver
das gentes é ter dinheiro
e quem muito quiser ter
cumpre-lhe de ser primeiro
o mais roim que puder.
E pois são desta maneira
os contratos dos mortais
nam me lanceis vós da feira
onde eu hei de vender mais
que todos à derradeira.