Júlio Dinis

UM PARECER

As minhas flores diletas

Não se encontram nos jardins

Por entre estátuas eretas

De mármore e labirintos,

Das estufas nos recintos,

E avenidas de alecrins.

 

Não ornam os toucadores

De feminis gabinetes,

Não perdem as suas cores

Brilhando à noite entre sedas

De manhã às horas ledas

Desmaiando nos tapetes.

 

Nas jarras não se acumulam

Dos vastos salões de festa;

Em grinaldas não emulam

No fulgor a pedraria,

A luz que o baile alumia

Não é a luz que as cresta.

 

Não; as minhas, as que eu amo

Não as procurem por aí

Pois que eu prefiro ao ramo

Das flores mais presumidas

As singelas margaridas!

Que nas campinas colhi.

 

As camélia: peónias

Que o jardim ostenta ufano,

E outras destes hierarquias,

Prefiro a rara violeta,

E a rosa que vegeta

Pelos campos todo o ano.

 

E, como as flores , as donzelas

São iguais nos agostos meus,

Pois para mim as mais belas

E aos olhos mais aceites,

Não são as p em mais enfeites

Encobrem os dotes seus.

 

Não são. Eu quero a beleza

Sem tão presumida arte;

O que vem da natureza

Tais atavios dispensa.

Mulher, atende-me e pensa

No conselho que vou dar-te:

Feia ou bela para longe

Desterra tanto: aparato.

Não faz o hábito o monge

Sem ele a bela se enfeita

E nada à feia aproveita

Esse tão caiado ornato.

 

Que pedras mas preciosas,

Que enfeites de mais valor

E que flores mais mimosas

Do que uns olhos radiante s

Umas tranças abundantes,

Uns lábios dizendo amor?

 

E vós, feias se a beleza

Vos negou seu galardão,

Não fujais da singeleza,

Não busques e extremo oposto.

Deixai de adoçar o rosto,

E adornai o coração

 

Maio de 1860.