Francisco de Sá de Miranda

Soneto VII.

1. Aquela fe tam limpa e verdadeira,

Ũa vontade sempre tam sem magoa,

Tantas vezes provada em fogo a fragoa

E como ouro apurada e sempre enteira,

 

2. Aquela presunção que achou maneira

De encher de fogo o peito, e os olhos de augua,

Por que eu ledo passei por tanta magoa,

Culpa minha primeira e derradeira,

 

3. De que me aproveitou tudo? por certo

10Não de al que de um nome ledo e vão

Custoso á alma, custoso á vida.

 

4. Dei de mim que falar ó longe e ó perto:

E ja assi se consola a alma corrida.

Se não achar piedade, ache perdão.