Júlio Dinis

À LUZ DO SOL NASCENTE

À luz do Sol nascente

Resplendem pelas selvas

Mil pérolas nas relvas,

Nos ares mil rubis;

No azul do céu nevoado

Não brilham as estrelas,

Mas são imagens delas

As flores do tapiz.

 

As aves perpassando

Agitam a ramagem,

E a perfumada aragem

Nos bosques se introduz;

Aí mil vozes falam

Ao céu sereno e mudo;

No bosque é sombra tudo,

No céu é tudo luz.

 

Ridente madrugada,

Hora em que do oriente

Com o gládio refulgente

O arcanjo da luz vem;

E as trevas se dissipam,

Com as trevas a tristeza,

Que em toda a natureza

A noite eivado tem.

 

Oh! vinde, vinde ao prado

Que o orvalho ainda humedece;

Ali tudo parece À vida ressurgir.

Em vórtices contínuos,

Em doudejantes, valsas

Elevam-se das balsas

Insetos a zumbir.

 

Subi do prado ao vértice

Da florida colina,

Então pela campina,

Os olhos prolongai

Ao longe, ao longe as vagas,

Lutando nos fraguedos;

Mais perto os arvoredos

Que o arroio banhar vai.

 

A tudo anima a esperança

No monte e vale e praia;

No céu Vésper desmaia

Ao matutino alvor.

O cântico das aves,

Das flores o aroma

Nos diz: — O dia assoma!

Hosana ao Criador!

 

1 de Julho de 1862.