Júlio Dinis
Vinde! Soprai furiosos
Ventos de tempestade!
Ergue-te, majestade!
Ergue-te, ó vasto mar!
Correi, legiões de nuvens,
Velai o céu de estrelas,
Ó gênio das procelas
Vem! Quero-te saudar!
A luz fatal do raio
Guie o meu barco apenas
E rujam como hienas
As vagas ao redor;
Pairem nos ares fatídicos
As aves de carnagem,
E cave-se a voragem
Com súbito fragor.
Surjam do fundo do abisma
Os pavorosos vultos
Dos náufragos sepultos
Dos mares da amplidão;
Responda à voz das águas
Frementes, agitadas,
O silvo das rajadas,
Os brados do trovão.
Do arcanjo do extermínio
O gládio chamejante
Ostente-se radiante
De ameaçadora luz;
Da tempestade às fúrias
Assistirei sorrindo
E bradarei: Bem-vindo!
Ao gênio que a conduz.
Bem-vindo, sim, que eu sinto
No seio mais violenta
Uma cruel tormenta,
A luta das paixões.
Procuro o mar furioso
Como um seguro asilo,
Arrosto-o e não vacilo
Das ondas aos baldões.
1857